NA HORTA DE DONA MARIA



“O mundo bem poderia ser uma grande horta: canteiros sem fim, terra
fértil, nossas sementes se espalhando, nosso corpo ressuscitando de
sua grande e mortal letargia.”

No livro “Retratos de um tempo”, referi-me ao Bairro do Arraial do Sapo, em Cordeiro, como “Arraial de Muitas Histórias”, e assim o vejo e assim ele é. A mais antiga notícia que tenho dele foi publicada no jornal Gazeta de Cordeiro, nº 39, de 28/06/1898, portanto há 114 anos. Falava de um conflito ocorrido no referido local entre José Picapao e Manoel Fonseca, tendo um golpeado o outro, sem vítima fatal. Também foi o Arraial vítima de muitas enchentes que causaram estrago à área ribeirinha. Mas nenhuma intempérie impediu que o bairro se formasse e crescesse sob as mãos de famílias que se eternizaram no local.
Nasci nesse arraial. Passei parte de minha infância ali. É, ali onde o trem despertava o povo e os lembrava que era hora de dormir, com o apito forte e o barulho nos trilhos. Também ali, seguindo a linha do trem, ia o rio Macuco. Eram companheiros só de ida porque o rio não retorna a água que leva. Se chovia, poças se formavam e o coaxar dos sapos e rãs se intensificavam. Mas havia gente amiga, vizinha, companheira. À esquerda do rio, seguindo caminho inverso ao dele, a casa de Dona Maria, vizinha de seu Oldair, um delegado temido, cuja moradia de portas e janelas vermelhas viviam sempre fechadas. O marido de Dona Maria fazia os canteiros, adubava a terra, semeava, aguava com água do rio, via brotar e crescer. A esposa colhia o produto fresquinho e nos vendia. Quantas vezes visitei a horta a pedido de vovó.
“ Leninha, corre lá na horta de Dona Maria e compra um tostão de couve e um de salsa.” E vinha ela, baixinha, rosto sulcado pelo sol, passos miúdos, olhar cambaleante, enxugando as mãos no avental. A chaminé denunciava que havia panelas no fogão de barro. Primeiro conferia as moedas e as colocava no bolso. Depois, ia colher o pedido.
A casa era muito antiga, mas tinha sinais de ter sido construída por pessoas de posse. Elevada do solo, tinha as janelas da frente contornadas de guirlandas em gesso, ainda hoje presentes no local, fazendo parte da paisagem do Arraial., mas muito amareladas da poeira e do tempo. E parecia ter muitos cômodos. À direita, a horta. Canteiros grandes e pequenos, acolchoados em tons de verde , entre os quais se podia circular. Nico, o filho de Dona Maria , sempre tão desanimado, gostava de curtir a indolência que lhe causava o sol. Mas isso depois de correr as ruas com sua cesta, descalço, vendendo verduras e colhendo alguns “ mil reis” para aumentar a pequena renda da família. “ Oia a cove, o chuchu e o quiabo!”, “ Quem vai querê?” Para provocá-lo, perguntavam : “Qual é seu nome mesmo, Nico?” E ele logo respondia: “É Nico memo ué.” E alegrava a todos com sua inocência.
Mas havia pimenteiras na horta. Pimenta de todo tipo. Em certas épocas, ficavam cobertas de frutas vermelhas, umas grandes, outras não, mas pimenteiras. Deviam estar no período fértil quando me aproximei de uma delas, enquanto aguardava vovó Cyra que conversava com Dona Maria a mesma conversa chata de sempre. Reclamavam da carestia, do sol, da chuva, da dor que apontava no pescoço e corria pelas costas até na barriga. E a outra dizia: “ Reza de espinhela caída!”, “Minha mãe estava assim e foi tiro e queda”. Tiro mesmo foi o que senti e motivou uma queda do sorriso. Enquanto aguardava o fim da conversa, fui quebrando umas folhas da pimenteira. Vovó se despediu e me levou pela mão. Antes de chegar ao portão, cocei os olhos. Chorei muito. Foi aí que juntou gente.
“ Pinga leite! “ Passa azeite!” “Lava os olhos!” , “ Passa espuma de sabão!”, “Reza os olhos da menina, gente!” , “Não, reza pra Santa Luzia!” . E ao som de cada grito mais ardiam, mais doíam meus olhos. “ Tapa os zoio dela com um pano com água fria, dona!”, “ É batê e valê!” . Sentada na escada, vovó me acolhia nos braços e tentava me acalentar.
Abri um pouco os olhos que estavam já sentindo o primeiro sinal de alívio e vejo Nico, ao pé da escada, olhos cheios d´água, com uma rosa branca nas mãos.Apertei a mão de vovó. Ele esticou o braço direito e me entregou a rosa . Eu, que tinha medo dele, senti uma grande ternura tanto  por aquele ser quanto pela rosa. Apesar do pequeno alívio, sentia os olhos vermelhos e inchados ainda. Odiei a pimenteira malvada.
- Faz chá  coa rosa e pinga no zoio dela, dona Cyra - disse o Nico.Vovó prometeu fazer, mas não foi preciso.Só em recebê-la, passou a dor dos olhos e o medo do Nico.
Nico mesmo. Nico, o mesmo. Do Arraial do Sapo. E das Histórias.
                                                                  Madalena Tavares



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog