ESTAÇÃO: OUTONO

Quem vai parar?



O ano tem corrido tanto que nem tem mais olhos para a paisagem do seu percurso que dura 365 dias. Apressado, não tem parado regularmente nas estações e nem reparado a beleza que caracteriza cada uma delas. Agora mesmo, abril já se despede e ele parece que não se deu conta de que chegou a uma nova parada , onde não há placa indicando, mas cujo nome é Outono. Para não se perderem do tempo, as pessoas embarcam no ritmo dele, correm junto, sem se perguntarem ao menos para onde estão indo ou aonde querem chegar.
Este fato me faz lembrar do encontro de Alice, aquela do “ país das maravilhas” com o “Gato de Cheshire” , momento em que ela pergunta ao gato qual o caminho a tomar para sair daquele local e ele respondeu que dependia de para onde ela queria ir. A menina disse que não importava muito para onde. O gato então filosofou, afirmando que a quem não sabe para onde quer ir não importa que caminho seguir- uma lição.
Mas voltando ao Outono, embora muitos não reparem por se tratar de uma estação com características não tão marcantes quanto as das vizinhas, devo afirmar que seu charme e poesia já inspiraram e inspiram muitos poetas. Cecília Meireles, em Canção de Outono, dirige-se a uma folha seca , dizendo: “ Tu és a folha de outono/ voante pelo jardim./Deixo-te a minha saudade /a melhor parte de mim.”
Mario Quintana , em Hai Kai de Outono, se espanta:
"Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca que se desprendeu E não quis pousar?"
s manhãs outonais , céu muito azul , permitindo timidamente a chegada do sol, são indescritíveis. E existe algo de mais belo que um pôr-do-sol de Outono, questiono.
Mas as árvores ficam desnudas. – replica alguém.
E aí mais uma vez dou voz a um poeta desconhecido que prontamente responde:
“ Caem as folhas tontas de sono e pelo ar vão voando, à procura do colo do outono ou de algum coração.”Certo. Para saborear o Outono, é preciso abrir o coração. É preciso juntar as folhas secas, varridas a cada manhã e, sem nenhum rancor, colocá-las ao pé da árvore mãe, livrando-as do lixo, triste destino para um ser tão frágil. Misturando-se à terra, elas alimentam e se alimentam para renascerem na Primavera.
Tomei uma decisão e estou certa de que fiz o melhor. Desci do tempo e parei na Estação-Outono. Deixei o tempo seguir, encantada com a poesia da natureza e a doçura dos frutos que a colorem e oferecem saúde a quem os saboreia.
São de fato muitos os encantos desta estação, mas depende do olhar de cada um. Se desviarmos os olhos um pouquinho que seja do trabalho, da TV, do jornal , do computador e dos defeitos do nosso próximo, sentiremos vontade de descer nesta estação, libertando-nos da correria do tempo que nos cega para a beleza da vida. E aprenderemos a lição das folhas que, apesar de secas, se empenham para ser feliz, diferentes de nós , que impomos tantas condições até para sorrir.
O filósofo Nietzche afirmou que o Outono é mais estação da alma do que da natureza.
Faz sentido então que a deixemos desnuda como as árvores, libertando-a das amarras do ciúme, da inveja, do desamor, do desassossego pelo ter que fragiliza o ser. É no Outono ainda que se dá a Páscoa, a ressurreição de Cristo, o tempo novo , pleno de alegria da vitória do bem sobre o mal.
E aí, leitor ? O tempo passa pela estação Outono.
Não vai descer?



Madalena Tavares. Em 22/04/12

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