“ DEVAGAR... AS JANELAS OLHAM”





Um título entre aspas? Sim, respondo logo e explico:
Trata-se de um verso de Carlos Drummond de Andrade, um dos poetas que mais deitou seus olhos sobre o cenário, os acontecimentos e as pessoas ao seu redor. Verso que encerra o poema  Cidadezinha qualquer”, no qual ele descreve cenas do cotidiano , vistas, acredito eu, da janela em que se encontrava no instante da criação, ou seja, num lugarejo do interior mineiro ou no que idealizou na sua rica imaginação.
Como é próprio da poesia, surge da leitura do verso em questão, um tom ambíguo: Janelas olham devagar ou precisamos ir devagar (com cuidado), pois as janelas olham?
Aposto nas duas possibilidades. Janelas não veem, mas nos permitem ver através delas, se a abrimos .E então o olhar pede um andar vagaroso, para que não perca cada detalhe. Cheio de subjetividade, observa e reflete . Mas dependendo da leitura, janelas podem ser tomadas como pessoas maldosas, que não olham, observam com uma dose de maldade que deturpa a paisagem. Então é bom que sejamos cuidadosos ao passar.
Mas continue lendo porque a manhã está linda, abro minha janela e olho:
O que vejo me remete a uma música de Chico Buarque, Cotidiano. Nela , ele descreve a rotina da vida de um homem com a mulher que todo dia faz tudo sempre igual . Ela é tão previsível como as cenas que minha retina já me permitem relatar mesmo sem ver:
Um carrinho de mão faz parada na esquina, como se fora um balcão ambulante de produtos de época, sem o vendedor. Encostados na grade da esquina, homens conversam e riem como se já tivessem cumprido a missão do dia. Cães se embolam soltos nas ruas, sem donos, mas livres. De dentro do carro, o motorista impaciente se irrita com a velhinha que atravessa a rua na hora em que o sinal verde se anuncia. Motoqueiros atrasados para o trabalho aceleram num malabarismo sem piedade de si e do próximo. Mocinha nova e sem aliança carrega um bebê no ventre crescido e segue rumo ao hospital. Frágil, uma senhora caminha apoiada nos braços do marido. Deixou o hospital. Jovens, olhar cansado, passam lentamente para a escola, andar diferente do que terão ao meio-dia, após o sinal de saída. Crianças, olhar sorridente e curioso, apressam o passo para chegar à escola onde ficariam por todo o dia se possível fosse. Nas bancas, os que aguardam a condução coletiva correm os olhos nas manchetes dos jornais, em busca de uma notícia alentadora e não encontram. Preferem então encarar a própria realidade. Correm para o ônibus. O rio encaminha suas águas rumo ao mar, obrigado a levar consigo o que o homem já não precisa e que enfeia seu curso e o envenena. Carros se amontoam rente ao meio fio, numa disputa ferrenha por uma vaga. O comércio abre as portas à espera de compradores enquanto estes passam apressados, esperando o fim do mês para definirem o que o dinheiro vai permitir comprar. O sol já está muito próximo da terra ,mas muitas janelas ainda estão fechadas. Guardam pessoas. Escondem o ócio ou o conforto dos que não precisam ou não querem levantar. O rádio entremeia notícias e os hits do momento. “Delícia!/ Assim você me mata. ”. O sino da matriz anuncia a hora. Hora de quê ? No banco da praça, sem relógio, olhar distante, velhinhos trocam um dedo de prosa e de desalento pelas ilusões perdidas. Meio à conversa, deixam escapar um sorriso. Um olhar para o lado e, na mesma praça, um jovem casal se beija, meio a ilusões que surgem, provocando o sangue que ferve e faz acelerar o coração. Ainda existe amor. Em frente à agência bancária, da cadeira de rodas uma mão se estende. Outra mão nela deposita uma moeda. Ainda há solidariedade.
Fecho a janela.
Deixo os olhos abertos apenas para a reflexão, pois foi com aguda lucidez que estive a espiar o dia-a-dia com que me deparo a cada manhã, pois faço parte dele. Integro cada detalhe desse emaranhado de cenas descritas. É a partir delas que meus pensamentos alinhavam as histórias que conto e que ficam descritas nas entrelinhas do texto, cimentadas que foram em minha memória.
Um século após Drummond, ainda espio o mundo da janela de uma cidade pequena.
Só, leitor, que a minha janela não é de uma cidadezinha qualquer, como a do poeta, pois sua importância não está no que possui, mas no que representa para o meu coração.

Madalena Tavares

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