DO OLHAR
O autor Juvenal Arduíne, em seu livro O Estradeiro, aborda o olhar e o faz de uma forma significativa e poética, transgredindo o dicionário, mas que se aproxima muito do fascínio que tenho pelo termo e sua polivalência. Afirma ele que o olhar é a morada do homem, é seu universo, arquivo documental das experiências vividas e reflexo das lições apreendidas.
Leonardo da Vinci descreve os olhos como janela da alma e espelho do mundo. Então é preciso manter essas janelas bem abertas , mas ao mesmo tempo bem guardadas para que não passe por elas o que não for digno de fazer morada na alma. O mundo, segundo da Vinci, se mostra de acordo com o olhar que deitamos sobre ele, deixando-se refletir nas imagens que dele captamos. O mundo então é o resultado do que extraímos dele.Assim, é único, individual na perspectiva de cada olhar.Na literatura, poucos retrataram o mistério e a força do olhar como Machado de Assis, um verdadeiro fotógrafo do cotidiano da sociedade do seu tempo. Em Dom Casmurro, explora o enigma do olhar de Capitu, descrevendo-o como “ olhos de cigana, oblíquos e dissimulados”. Comparava os olhos da personagem à ressaca do mar, perigosos, que atraíam e tragavam .
Verdade é que somos o que nossos olhos recolhem do que existe ao nosso redor, o que extraem das leituras que fazemos, das paisagens que contemplamos, dos julgamentos que lhes enviamos, das experiências que vivenciamos, da poesia que nos permitimos imprimir à vida ou da ausência dela.
Convidada para ocupar um espaço neste jornal, vou dedicar a ele o fruto do meu olhar. Olhar feminino, sim, sensível e crítico, poético , mas verdadeiro. Para isso, precisarei abrir as janelas da própria alma e libertar o que lá habita porque os olhos captaram. Há de entender o leitor que muitas vezes poderá discordar do que retratarei e com razão porque os olhos têm a mesma função, porém a fotografia que sua lente faz do mundo é extremamente individual e única.
Quero apenas a liberdade que a escrita se impõe, mas com a certeza de que a ética é o caminho por que deve caminhar a imprensa. Escrever é muito perigoso, dizia Clarice Lispector, porque é a tradução fiel do nosso próprio ser. É mostrar-se ao leitor e esperar que seja ele um tradutor fiel e um juiz consciente da nossa escrita.
Mas que fiquem tranquilos. Pretendo apenas exercitar um prazer que advém da convivência com as palavras. Fazer ginástica sob o comando delas, privando o cérebro do ócio que o fragiliza e envelhece.
Com essa incumbência , estarei ainda mais atenta, buscando fendas na história, no presente, nos acontecidos e” acontecendos”, permitindo-me enxergar através delas.Daí o título da coluna , “ entreolhar (res)” , ou seja, a troca , que certamente ocorrerá entre nós , isto é, eu e os leitores que espero ter , motivo maior de quem se propõe a escrever.
Bom, após esta apresentação, no próximo número publicaremos o primeiro fruto de uma longa existência dedicada a olhar e entreolhar a vida, sem ser penas contemplativa, pois que deveres de ordem prática e profissional exigiram muito de meus frágeis braços.
Madalena Tavares
10/03/12
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