Estar na Bienal do Livro

 

 O livro é o mais perfeito invento e que não
                                   tem ainda concorrente em sua capacidade de doação.
         

         Para quem gosta de ler,entrar na Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, é como ter acesso ao paraíso. Perde-se o rumo e ganha-se o medo de não dar tempo de ver tudo, de não adquirir os desejados e possíveis. Também é mágica a escolha, a decisão por alguns poucos em meio àquela multidão de exemplares. Multidão sim, porque livro para mim é gente. Perde o sentido no termo coletivo que lhe confere o idioma.Novinhos, cheirosos, expostos nos stands, adquirem um poder de fascínio, de atração irresistível.Vontade mesma de voltar com os braços cheios deles, abrir todos ao mesmo tempo e ler, ler, ler...

            Mas eles eram tantos e o tempo  tão curto e o dinheiro tão pouco...

            Difícil mesmo foi estar ao lado deles, num salão vizinho, mesmo em missão parecida, participando de um encontro estadual de cultura. Muito proveitoso por sinal, com gente importante do meio, apontando caminhos, mostrando ações possíveis, principalmente para nós, do interior, tão distantes que estamos dos meios culturais, se considerados estes como bons teatros, cinemas, museus, livrarias. Vez por outra ouviam-se rumores, palmas e logo imaginava algum famoso chegando para a missão literária do dia.Seria Ziraldo? Luis Fernando Veríssimo? A jovem francesa  Lolita Pille? Estariam eles no “ Imaginário do autor”,um espaço destinado ao encontro de autores para conversas e debates? Não podia saber, presa a outro cenário , ouvindo outras personagens, estas de  um romance real.

            Lá pelas 17:30h, num finalmente do encontro, a corrida voraz rumo aos stands.

            E a disputa com jovens, muitos jovens uniformizados, crianças acompanhadas de pais e professores, famílias inteiras olhando, descobrindo, comprando. Bateu o medo de me perder meio a tanta gente e livros naquele espaço gigantesco no Norte Shoping. O jeito era arriscar.

            Tomei coragem e arrisquei.

            Havia livro para todos os gostos e economia. Bancas de livros de  50 centavos e outras de possíveis 500 reais, coleções completas nas mais diversas áreas do conhecimento.Editoras que só vendiam à vista, outras de fácil financiamento. E muita gente buscando, trocando informações, um respirar só de cultura.

            Achei! Olha ela aqui! Eram os livros de Clarice Lispector, minha escritora predileta e grande homenageada na Bienal do Livro. Faltavam mais para a minha coleção, mas comprei dois. Noutra editora discutiam  Lia Luft.  Gostei. Estou louca para ler. Uma edição linda de

“ Ou isto ou aquilo”, de Cecília Meireles! Certamente agradará a Alice, minha neta de seis anos que me fez encomenda. Nada do centenário Érico Veríssimo? Não, tenho os principais. Decidi por um livro do filho, Luis Fernando Veríssimo.

Mesmo sem comprar faz um bem imenso olhar. Mais ainda, sentir o livro, vê-lo sendo levado por mãos as mais diversas em tamanhos e tons, opção pessoal meio  a muitas outras tão comuns quanto destrutivas. Saber e poder ler é uma riqueza sem limites. Quantos querem e não sabem. Muitos nem podem. Quantos sabem, podem, mas não querem. Ler tem que ser um hábito criado pelo prazer. Iniciado antes mesmo de nascer, ao ouvir as histórias contadas pela mamãe ainda gestante e leitora.

            É, mas nem tudo eram flores na Bienal.Irritar-se com algumas situações também fizeram parte. A maioria das editoras, por exemplo, não exibiam o  preço dos livros. Seria estratégia? Certo é que meio ao tumulto ainda se tinha que correr a perguntar aos poucos vendedores e esperar a consulta na tabelinha dos próprios. Às vezes os valores levavam simplesmente a recolocar o livro em seu devido lugar.

            Voltei com alguns e muita curiosidade sobre eles. Pena que estejam ainda aguardando vaga, pois estou relendo o  quatrocentão  Dom Quixote de La Mancha, do espanhol  Miguel de Cervantes e rindo muito com o romântico mais louco que conheci. Louco ou sonhador, pergunto-me.Pena que utópico, mas um inigualável cavalheiro que sonhava com a justiça, a honestidade e um amor puro e sincero. Colocou-se em defesa de seu ideal até chegar ao ridículo.Quatrocentos anos  depois de sonhado, o sonho de Dom Quixote ainda é o mesmo nosso, se é que ousamos ainda sonhar. Tenho vontade, em alguns momentos,  de pegar uma armadura, capa, espada e sair por aí a combater injustiças e corrupção. Sem ser solidária com “companheiros” desse tipo. Gostaria mesmo de enlouquecer, descobrir um fiel escudeiro como Sancho Pança e aí, aí... nem, moinhos sobrariam da nossa luta pelo bem.

            Mas, por enquanto, que permaneçam iniciativas brilhantes como a da 12ª Bienal do Livro, no Rio de Janeiro.

                                                     Madalena Tavares

224/05/05

 

Para o Jornal O Momento

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