ENTREOLHAR(ES)


UM BANQUINHO E UM VIOLÃO



Entreolhares, amigos me retratam como uma pessoa desligada, para quem papéis, objetos, mesmo os pessoais, contam pouco. Estão certos. Tal característica já me colocou em cada saia justa que se fosse descrever aqui, renderia crônicas e crônicas. Já sou lendária nos quesitos trocar, esquecer, verbos que nasceram comigo e comigo convivem desde os tempos de Leninha. Mas cada vez que presencio pessoas contando episódios a meu respeito, constato o rolo que fazem, tantas trocas e misturas que me sinto mais confortável em ser como sou.
Realmente minha memória não se importa com o que está ao meu redor. Ela retém imagens de pessoas, mas se recusa a ligá-las aos nomes. Então, quando me encontro com alguém que há muito não vejo, ou dou a ela o nome que quero ou sorrio, converso, abraço e me despeço da “menina” ou “menino”, deixando para saber o nome depois por algum informante mais bem dotado nessa questão. Meu coração, ao inverso, guarda tudo e todos.
Mas o universo bem que conspira a meu favor. Nunca perdi nada a não ser temporariamente. Tudo volta às minhas mãos e às mãos dos donos, claro., pois o inverso também ocorre. Ouço os Titãs e confio:“ O acaso vai me proteger/ enquanto eu andar distraído(a) .”Reservo a memória para o tempo e seus acontecimentos marcantes. Gosto de observar hoje o que se passou ontem e reviver, sem que isso me cause nenhuma nostalgia. Assim é que vou e volto no calendário, numa viagem constante que me faz muito bem. Tudo serve de ponto de partida, como a capa do CD com o título “Um banquinho e um violão” que achei dentre outros que coleciono. Coisa de outro dia mesmo, forma simples de juntar voz e música, gente e arte, cultura e lazer. Vi, ouvi e voltei no tempo.
Era o ano de 1964, quando , recém formada, fui lecionar em São Sebastião do Alto. Início de ditadura, perseguições que requeriam cuidados até com os pensamentos, a música era a saída. O único médico do local, Dr Ulisses, (lembro o que quero lembrar) , à noitinha levava o violão e sentava-se num banquinho, sob um caramanchão, dedilhava algumas cordas e logo ficava rodeado da platéia de sempre. Integrei-me logo ao grupo, claro, e sem constrangimento algum cantava e ouvia os outros cantarem. Antes das 22h, o movimento acabava e íamos dormir felizes como se estivéssemos voltando de uma apresentação sinfônica ou da Broadway, que gerou filmes a partir de musicais que apresentou como A noviça rebelde ou Hair. Em pouco tempo eu já era “crooner” do conjunto da família Latini, com uma amiga que era irmã dos músicos e cantava também. Ao ritmo de Vereda Tropical, e outros boleros ( hit da época) fazíamos a festa ( ou os bailes).
Mas e o banquinho? Bem, este teve fases áureas. Forrado de veludo ou brocado, punha-se à frente da penteadeira, móvel indispensável no quarto das mulheres, onde se embelezavam. Mas havia também o banquinho do quintal, o que acompanhava a mesa da cozinha, o da calçada, para aquele dedo de prosa, o do jardim da praça, para os namorados e o dos bares , para o exercício da boemia. Onde chegasse alguém com um violão, logo aparecia um banquinho para que se aconchegasse e pegasse o instrumento.
Toda cidade tinha seus violeiros que costumavam se encontrar em saudosas serestas. Em Cordeiro não era diferente. Uma voltinha ao passado e relembro Epitácio Campos, sempre com o violão como companheiro. Nunca fez preço para se fazer presente em festas e reuniões de qualquer natureza. Se aparecia um banquinho, alegrava-se e alegrava os que o ouviam e se faziam ouvir. Tinha toda paciência do mundo mesmo com os desafinados. Tocava com a mesma empolgação numa roda de amigos como na famosa Night and Day, orquestra que marcou época. Hoje as exigências de lazer já não são tão simples, os instrumentos são sofisticados e há preferência pelo DJ.Ouvir música informalmente e ou cantar em torno de um banquinho, ficou “careta”. Então, de pé, encerro esta crônica com o verso de uma música do CD novo de Maria Gadú: “Rouco um cantor se esgoela sozinho em meio a uma multidão/ Um axé acapella feroz insinua o batidão.”, sem banquinho, sem violão.

Madalena Tavares




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