VELE REGISTRO:
LÍNGUA /POLITICAMENTE CORRETO
E deixem os portugais morrerem à míngua,
“ Minha
pátria é a minha língua”
Caetano Veloso
Num
tempo que não vai tão distante, “cartilha” era
um instrumento de respeito e poder. Alguns dicionários, tal qual o de Silveira Bueno, ainda registram um único
sentido para o termo: “ livro de
primeiras letras para ensinar a ler”. Nos meios escolares das décadas de
setenta e oitenta, uma das grandes preocupações era a escolha da cartilha. Esta
devia ser de qualidade, pois que definiria a boa ou má alfabetização do aluno.
O
termo criou asas semanticamente e assumiu tamanha importância que nas últimas
semanas virou manchete de jornais e tema de cronistas famosos. De João Ubaldo
Ribeiro (primeiro grito),passando por Frei Beto, Arnaldo Jabor, Chico Alencar e
até o felino Agamenon, a última cartilha de que se tem notícia foi alvo de
tantas críticas que se recolheu humildemente à sua insignificância. Falamos da
Cartilha “Politicamente Correto” , da secretaria de Direitos Humanos, do
governo federal que, se elaborada para um determinado fim, resultou numa grande polêmica, gerando revolta no meio
jornalístico, literário e até político. Esta sim foi a grande lição: a língua é
feita pelo povo e para o povo. Não há como impedir a espontaneidade de seu uso
e impor regras para a seleção de termos e ou expressões, tomando-as como forma de estímulo ao preconceito.Pensando combatê-lo,veio
a cartilha suscitá-lo mais ainda.
Graças à imprensa, a
grande cartilha informativa e esclarecedora de hoje e que levantou a voz, vamos
poder continuar nos comunicando sem nos preocupar com o seletivo ou não
vocabulário usado. A não ser, como diz João Ubaldo Ribeiro, que surja o programa
“Fala Zero” e que este, ao contrário do similar “Fome Zero” dê certo e se
estabeleça com sucesso no país. Que Deus nos guarde ! Passou o tempo da
mordaça,da escrita censurada, do drible constante através de metáforas e que
mesmo com o artístico disfarce muita gente morreu ou fugiu. Nem a triste
ditadura censurou Chico Buarque de Holanda quando mandou um recado cantado aos
que ainda estavam no exílio, dizendo:
“ Mas
o que eu quero é lhe dizer que a coisa
aqui tá preta.”
Hoje, apesar da
sonhada liberdade de expressão retomada, teríamos então um Chico - compositor politicamente incorreto, de acordo com o que
reza ( rezava) a cartilha.
Intrigante que a
secretaria de Direitos Humanos se preocupe tanto com o falar do povo e se faça
de surda para o linguajar usado no meio
político governamental brasileiro. Há pouco tempo, o Presidente da Câmara
Federal afirmou “ A Câmara não é “supositório”
do Executivo”. Imaginem a extensão semântica do termo
Deixemos o povo falar
como sabe e gosta. Ele se entende.
Na década de 20, século
passado portanto, Oswald de Andrade já dizia em seu poema Pronominais : “mas o bom negro e o bom branco da Nação Brasileira”, igualando-os assim pela
fala espontânea, diferente
da do professor e do mulato sabido. Existe,sim, a norma culta da língua,
registro ensinado na escola, exigido nos concursos, mas também devem ser respeitadas as outras formas de expressão. Importante mesmo
é a intenção da fala.É o que diz a alma em recado dado pelo coração.
Respeito e educação
no trato com o próximo não se aprende em cartilhas.Preconceito não se elimina
com leis e imposições, mas é fruto da
educação que se recebe e que se transmite. Aceitar e respeitar o próximo em
suas diferenças ultrapassa a palavra usada porque só existe enquanto ação. Ver
o outro como irmão é para os que se sabem “ filhos de Deus” e seguem seus
ensinamentos..
Mas arrematemos esse
registro com os versos que se popularizaram na voz de Jair Rodrigues:
“ Deixa isso pra lá
(...)
Faz
mal bater um papo assim gostoso com alguém?”
Madalena Tavares
14/05/05
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