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A cada manhã

Observe a terra. A cada manhã, tudo cheira a recomeço. O Sol vai despontar igual, mas não do mesmo jeito. A flor vai reabrir , mas diferente da primeira vez. O broto desponta no chão e não é da mesma planta.O homem desperta para a vida e não é mais o mesmo. Assim se faz porque é a forma de se manter com vida e dar continuidade à espécie, pela mudança. Mudar é que é continuar. Mudar sem perder o perfil é a grande arte. A rotina desgasta e a natureza sabe. É preciso ser outro, sendo o mesmo. Manter vivo o ritual, mesmo que partindo do final.Ser todo dia sempre igual, mas diferente. Beijar a mesma pessoa a cada manhã, mas com sabor diferente do beijo ao anoitecer. As estações do ano garantem todo ano a mudança necessária ,aguardada pelo fastio que a anterior deixou. Vai o Sol, vem a Lua. Ficamos nós, mutantes por opção, no aguardo da nova fase do mesmo momento. Assim o amor. Se esgota aqui, pode ressurgir ali. Mas não o mesmo , nunca mais o anterior. Nunca mais com o mesmo sabor. Mas é pr...

Independência ou Morte?

Diz a história que essa teria sido a frase heróica de D. Pedro I no 7 de setembro de 1822: "Independência ou morte!" Com ela e a partir dela, o Brasil tornou-se independente da soberania portuguesa e ele, o 1º imperador do Brasil.Tudo perfeito, tivesse o país condições de arcar com os ônus da valente e nobre frase. A alternativa ou que marca o célebre grito de D. Pedro I no Ipiranga, não se concretizou e foi substituída pela aditiva e. Realmente houve uma "independência" oficial e muita morte para que fosse reconhecida. Perdura até os nossos dias o rótulo brasileiro de nação independente. Mas como admiti-lo num país onde a disparidade social é agravante, a violência assusta o mundo, a corrupção é prática comum nos meios governamentais e a educação não consegue atingir o patamar exigido em qualidade para mudar a consciência cidadã do povo?Independente e democrático, o Brasil caminha na contramão. A imprensa denuncia, prova, divulga, desmascara. CPIs são criadas e s...

UM DIA DIFERENTE

Hoje amanheceu como amanhece cada novo dia. Por ser maio, o sol demorou um pouco a brilhar,chegando sorrateiro, com medo do inverno que se aproxima.Mas sendo domingo e dia das mães, nem a ausência de sol empanaria minha expectativa de ter um dia iluminado de paz e harmonia.Fico fingindo uma naturalidade que não existe, como se não soubesse o que caracteriza esse domingo diferente. Ouço ruídos de porta e não identifico o quarto. De quem seria o primeiro abraço? E se não houver nenhum abraço? Sei que a criação desta data pode ser um marco mais comercial que de reconhecimento, mas é fato que nos sensibiliza e até fragiliza na ânsia de ser lembrada, abraçada , embalada por quem já embalou e guardou nos braços , aos abraços e carinhos sem ter fim.Ligo o computador e surge um rosto conhecido e uma legenda: "Feliz Dia das Mães! Te amo!" Era o Fábio. Mais abaixo , uma mensagem e " Te amoooooo!", era Roberta. Fiquei tão feliz! Fui acabar de preparar a muqueca e aí os quartos...

CORAÇÃO BOTAFOGUENSE

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CORAÇÃO BOTAFOGUENSE--   AUTO-RETRATO Coração botafoguense é aquele que nutre amor, não paixão, por uma estrela de brilho tímido, que certamente não é a que mais brilha no céu esportivo, mas que, por ser solitária, inspira a ternura dos que não esperam dela brilho maior do que pode ter. Coração botafoguense sabe esperar o tempo certo, independente de quanto ele custe a chegar. É Penélope esperando Ulisses, fazendo do seu sonho um bordado interminável para esperar a chegada do amado após anos de luta por uma vitória. Coração botafoguense não se mostra com grande freqüência, não ama seu time para fazer parte de uma grande maioria de torcedores que mais se orgulha de assim ser do que do objeto amado. Coração botafoguense conhece bem o sabor amargo da derrota, procura manter-se com dignidade à margem dos grandes campeões, esperando sua vez de poder emitir algum brilho num céu alvinegro. Juntos, os corações botafoguenses não formam uma nação, mas um grupo de renitentes torc...

Mágica da Modernidade

Houve o tempo em que parentes e amigos se visitavam aos domingos, nas férias e ocasiões importantes. Tempo do rádio numa prateleira na sala de visitas, mudo durante o "estar juntos" para não interferir na prosa daquele momento . Quem não podia escrevia cartas, mandava cartões de aniversário, de Natal e telegramas quando a notícia era urgente.Ah, o carteiro era mais que isso, era uma figura esperada, principalmente se deveria trazer carta da pessoa amada. Mudou o tempo, acabaram-se os rádios, as prateleiras, as visitas, cartas e telegramas. A família ficou pequena e distante ainda que sendo muitos, na mesma casa, cada um à frente da sua televisão ou do seu computador. Este último virou milagreiro. Desconhece distâncias, reune familiares, informa, aproxima, provoca saudade, traz alegria.Através dele reencontrei Paulinho, um primo tão querido , distante há tantos anos. Não tive dúvida quando vi sua foto no Orkut e a palavra Leninha. Era assim que me chamava quando convivíamos. C...

Zebra de listras alaranjadas

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É, isso mesmo, deu zebra no jogo Brasil x Holanda. Certo que a zebra tinha listras alaranjadas, fato que forçou a seleção brasileira a usar a camisa azul que, segundo os supersticiosos, não traz sorte à equipe.Outros, como já era de se esperar, culpam Dunga, o técnico, judas exposto à malhação da torcida.Na berlinda também os jogadores, colocados em vitrine de cristal, prontos para piadas e pedradas.Estes fatos me incomodam, levam-me a repensar o nossa condição de povo sempre perdedor em questões de muito maior importância e que não procura culpados, aceita pacificamente ser lesado e se diz um povo feliz, ainda que com vida de gado marcado,como diz Zé Ramalho. Já tivemos técnicos de futebol e jogadores que nos contemplaram com 5 Copas do Mundo. Mas não encontramos governantes que pusessem fim à violência, à pobreza, à desigualdade social, à fome de poder e de dinheiro dos políticos. Quando vamos comemorar uma vitória em pelo menos um desses aspectos? Luciano Huck chamou Dunga de burr...

South Africa 2010

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Bonito símbolo o desta Copa do Mundo na África.Faz-me lembrar o mundo caminhando a passos largos numa curva que o levará ao ponto de partida. Mas, e a chegada? Chegar é estranho, é triste. Lembra acabar.É preferível, então,voltar. É o que faço. Volto a 1958, à 1ª Copa do Mundo em que o Brasil foi campeão. Foi televisionada, mas poucos tinham o mágico aparelho. Ouvíamos os jogos pelo rádio. Papai fez um curso de rádiotécnico por correspondência e montou um para nós. Ele não tinha ainda uma caixa de madeira ( veio depois) mas nos reuníamos em torno daquele emaranhado de válvulas e fios que transmitiam o som esperado: "Goal!!!!!!!!" E o Brasil fez muitos "goals" que marcaram época. O técnico ouvia Didi, que orientava da escalação às possívei substituições. ( Li isto hoje.) Muitos dos nossos atletas eram pobres e, em função disso, na comissão havia até dentista. Vai que desse dor de dente em algum jogador. Tempo em que os termos eram em inglês: " goal, goalke...