ENTREOLHAR(ES)

 

                                           “NADA DO QUE FOI SERÁ

                                            IGUAL AO QUE A GENTE VIU HÁ UM SEGUNDO...”

 

                                 

O mundo nos chega pelo olhar.

Se sentimos cheiro, queremos ver de onde vem. Se ouvimos um som, queremos enxergar  o que o produz. O visual de um prato é que aguça o paladar. O tato exige que os olhos se voltem   para o  objeto tocado.

Pois foi por ele, o olhar, que, passando pela praça, num início de manhã, percebi sons que não faziam parte do cotidiano do local há muito tempo. Cheiravam a demolição. Vinham do casarão da esquina que,  resistindo ao tempo, presenciou o final dos séculos XIX e  XX e ia se mantendo, ainda que adoentado, pelo século XXI.

Já bem ancião, sucumbia ao peso da idade. Faltou cuidado, faltou atenção, é certo, pois, ao contrário, lá permaneceria para contar histórias que presenciou da localização estratégica em que o construíram. Deve ter se entristecido quando viu tombarem prédios tão antigos quanto ele, cuja queda  denunciava  qual seria também o seu destino.

Então, ele ,que sofria calado, quietinho naquela esquina, passou a ser o centro das atenções. Surpreso e desapontado, o povo se pois a lamentar, mas o leite já estava derramado.

Agora, o prédio  será mais uma fotografia a ser postada no facebook, no grupo “ SOU DE CORDEIRO”, criado por Tadeu Santinho e na Galeria de Fotos “ João Belliene Salgado, no Centro Cultural Ione de Carvalho Pecly, deixada por Madalena Tavares.

Lembro-me  da família Simão,  conhecida como muito rica e proprietária do casarão, ponto de referência desde o antigo povoado de Cordeiro. Aos domingos,  dependendo do filme, a fila para o  Cine Madrid dobrava aquela esquina . No varandão, sempre atentas ao movimento na Avenida Raul Veiga, sempre estavam Dona Odila, professora do Grupo Escolar Inocêncio de Andrade, e as irmãs Helena e Laura. Jovino, também filho de Seu Simão, possuía uma oficina de televisão, na parte do casarão que dava para a rua 15 de Novembro. De repente, sumiram-se todos. Só ficou a construção. Nela, funcionaram  restaurantes que tiveram vida curta e , nos últimos tempos, um polo de atendimento universitário.

Apesar de todas as possibilidades a que servia e serviria, o casarão estava doente e condenado à morte. Cumpriu seu destino, pois veio do pó e ao pó retornou.

Falando nesse tom nostálgico, pareço avessa à modernidade; ledo engano. Entendo que “ tudo passa, tudo sempre passará”, ainda que  permaneça , desculpem o paradoxo, mas é que cada época tem um espírito que move e une pessoas, cria hábitos, dita moda e atitudes que parecem destinadas ao “ para sempre”.

O mundo vem em ondas como o mar  e a vida, tal qual a água que volta após a rebentação da onda na areia, já não  é mais a mesma.Os anos 50 e 60, por exemplo, ficaram conhecidos como “anos dourados”, marcados pela emoção, pelo romantismo, pelo galanteio, com toda uma cultura que lhe era peculiar. Mas passou. Tentaram retomar, fazendo “ Baile anos 60”,  exigindo trajes e músicas da época, que resultaram inúteis no resgate do tempo ido. Faltava o espírito que reinou  temporariamente e se fora para sempre.

Se o  ser humano muda e muda  a história que ele mesmo escreve e determina, imaginem os prédios. Se têm valor histórico, cultural e ou sentimental e querem preservá-los, é preciso que sejam cuidados. Proprietários e poder público precisam chegar a um consenso e determinar a função deles e a sua manutenção. Em Cordeiro, restam poucos, podem ser contados nos dedos das mãos. É preciso também entender que não é a modernidade dos prédios ou  o número de andares deles que determinam o progresso de uma cidade, mas a cultura , a educação e a sensibilidade do povo para as tradições. Estejamos conscientes disso, pois, como diz o velho ditado, chorar o leite derramado e apontar culpados depois, não vai adiantar.

É preciso manter o olhar atento.

                                                       Madalena Tavares                      28/06/12

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