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Há 40 anos...

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Há 40 anos, 20 de setembro caiu num sábado. Sábado ensolarado como costuma ser na Primavera. Devo ter acordado com os olhos meio inchados, pois na véspera chorei um pouco ao me despedir do meu travesseiro, da minha cama, de mim mesma, pois afinal ,esta que eu vivera até agora tinha sua última noite de solteira, para se transformar numa outra, desconhecida para mim.De repente foram chegando pessoas, a casa ficou cheia, telegramas, presentes, abraços, cartões, brincadeiras, parentes distantes, amigos do noivo que eu nem conhecia, a hora passando, o momento chegando ... chegou. O vestido, inteirinho de crochê, feito por D. Zezé Guzzo, fiou perfeito. O penteado, tão artificial, visto agora, permitiu o encaixe da grinalda toda em pérolas, que me caíal às mãos e desciam como um longo terço. Cuidado com o véu!, gritavam. Eram 7 metros de tule. Na horinha de sair, puseram-me às mãos uma linda e úmida orquídea. Na igrejinha antiga, o noivo já aguardava no altar. Ela nunca me parecera tão grande...

Deserto... eu tenho?

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Um bom crítico literário é capaz de nos convencer de imediato a ler um livro. Se não o temos em mãos, suas palavras ficam a nos atormentar numa busca atroz. Pois assim tem sido comigo desde que li um comentário no Prosa e Verso de O Globo , sábado último sobre o livro que vai ser lançado na Bienal do Rio, chamado " No teu deserto", do escritor português Miguel Sousa Tavares, autor de "Equador" e "Rio das Flores". Li o segundo e adorei. Mas o que vem me tentando é a apresentação do novo livro dele, por um escritor que desconheço, mas que o fez com uma propriedade, com uma autoridade de quem conhece a boa obra, com uma sabedoria demonstrada nas leituras citadas e comparações feitas que me encantou. Seu artigo trata de " desertos". Diz que todo escritor tem seu deserto. Que o de Fernando Pessoa está numas ladeiras em Portugal, que o de Machado de Assis é o Rio de Janeiro do seu tempo, que o de Clarice Lispector está na capacidade de dizer no indizív...

Angelo, para você, leia

Por que falar de Manuel Bandeira exaustivamente se Cordeiro, nós todos temos você, Angelo? Uma pessoa de um talento ímpar, com grande habilidade no campo das artes, leitor assíduo e escritor reconhecido no país, premiado em inúmeros concursos e ainda dono de um humor contagiante, perto de quem não se consegue deixar de rir, tamanha a capacidade de brincar e provocar riso até com um simples olhar. Recordo-me de suas investidas no meio cultural em Cordeiro. Escreveu e dirigiu algumas peças de teatro que fizeram sucesso, produziu um curta metragem de nome longo ( não me arrisco a tentar dizer o título) que venceu o " Revelando Brasis", é escritor, poeta, artista nato em múltiplas linguagens. Frente ao Departamento de Cultura de Cordeiro, deixou suas marcas no pouco tempo que lhe foi destinado. Marcou-me o inovador concurso de fotografias. Lindo! E ainda é um amigo e tanto. Imaginem leitores ( tenho uns dois +-) que ele lê o meu blog e cobra quando fico preguiçosa e não faço post...

Vamos para Pasárgada?

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Manuel Bandeira foi o grande homenageado da VII FLIP/09. Merecida homenagem ao pernambucano ( de Recife), poeta que foi muitos, sendo um só, com uma obra que transita no simbolismo, no modernismo, com nuances românticas e realistas, tanto nos versos quanto na prosa.Presente em sua obra, o cotidiano, o misticismo, a lembrança da infância, da terra natal, a tristeza com a doença, a dor da solidão, a sensualidade, a condenação à morte e a superação, tudo numa poesia muitas vezes prosaica, mas grandiosa.Em plena infância, aos 8 anos, descobre-se tuberculoso e começa a luta pela sobrevivência.Em 1913, foi para a Suíssa em busca da cura.Em 1914, retorna ao Brasil, em função do início da I Guerra Mundial e soube que era grave seu estado de tuberculoso. O médico não lhe deu esperanças de cura. Voltou, investiu na vida e só morreu em 1968, não como vítima da tuberculose. Mesmo assim, muitas vezes foi vítima da melancolia, das limitações impostas pela doença, da solidão e, então, criou " Pa...

O eu profundo e outros eus

Aparecida, Fernanda, Virgínia e eu chegamos em Trindade, distrito de Paraty, sexta-feira, 3 de julho, após horas de viagem pela Canoa da Serra, saindo de Cordeiro. Assustou-nos/me a pousada( estranha) e a marca 3M: mar, morro e mato, charme do lugar, não para pessoa tão urbana quanto eu.Mas sobrevivemos e até tomamos um suco no Bar da Larica ( Seria ali Amsterdam?). À tarde, finalmente, Paraty.Cultura em plenitude espalhada aos quatro cantos.Rodamos e chegamos à casa do prefeito, recebidas pela primeira dama, amiga de Virgínia, para apanhar nossos ingressos antecipados para as tendas escolhidas. Estávamos aflitas para assistirmos à 1ª mesa, "O eu profundo e outros eus", com a presença do mexicano Mario Ballantin e o brasileiro Cristóvao Tezza.Estes debateriam a questão da obra autobiográfica, a presença do eu do escritor na ficção, onde o comum é o eu lírico, o outro eu do autor . O brasileiro primava pela discrição e a elegância. Acabou meio " engolido" pela simp...

FLIP/2009: EU ESTIVE LÁ

Ir à FLIP é ter a certeza de poder voltar culturalmente renovado. É passar uns dias em estado de graça, rebatizado pela palavra de quem sabe laçá-la na escrita e soltá-la para que outros a alcancem na leitura e a "definitivem" na alma.Desconfio de que seja lá a tão sonhada Pasargada, de Manuel Bandeira. Ele, que foi o patrono da 7ªedição do evento, e que morreu sem ter visto a terra que idealizou.Mesmo sem estar fisicamente no local, ele era o amigo do rei, que enfeitou a cidade para mim e para "ty", com as personagens criadas pelo nosso poeta, entremeadas à sua história e aos locais onde a viveu. Manuel , Bandeira de nossa poesia, certamente juntou-se a Irene, a quem dedicou um lindo poema e, da mesma forma como descreveu a acolhida de sua negra querida no céu, deve ter sido recebido: " Entra, Manuel, aqui você não precisa pedir licença". De lá, ele enviou uma imensa nuvem de poesia que pairava sobre Paraty, cidade poética por tradição e proteção dos d...

Gerâneos em flor na janela

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Em criança ouvia uma música que dizia: " Felicidade é uma casinha simplezinha /com gerâneos em flor na janela/ Uma rede de malha branquinha/ E nós dois a sonhar dentro dela." Essa definição tão singela quanto irreal, hoje posso ver, acompanhou-me por muito tempo.Ser feliz então era ter uma casa com a jardineira repleta de gerâneos em flor.E eu sonhava, imaginava, desenhava essa casa e me sentia dentro dela. Faltava sempre a rede branquinha e o " nós dois" , mas o sonho se mantinha. Sonho e tempo acabam passando. Muitas vezes o tempo carrega consigo o sonho e o deixa livre para se transformar em realidade na vida do sonhador. Nem sempre o sonho se realiza inteiro. Muda a cor da rede, o tamanho da casa e deixa apenas um sonhador dentro dela. Aos outros entrega a secura da vida prática, sem nenhuma nuance de romantismo. Bom que tenha conservado os gerâneos em flor da minha janela.