Há 40 anos...



Há 40 anos, 20 de setembro caiu num sábado.
Sábado ensolarado como costuma ser na Primavera. Devo ter acordado com os olhos meio inchados, pois na véspera chorei um pouco ao me despedir do meu travesseiro, da minha cama, de mim mesma, pois afinal ,esta que eu vivera até agora tinha sua última noite de solteira, para se transformar numa outra, desconhecida para mim.De repente foram chegando pessoas, a casa ficou cheia, telegramas, presentes, abraços, cartões, brincadeiras, parentes distantes, amigos do noivo que eu nem conhecia, a hora passando, o momento chegando ... chegou. O vestido, inteirinho de crochê, feito por D. Zezé Guzzo, fiou perfeito. O penteado, tão artificial, visto agora, permitiu o encaixe da grinalda toda em pérolas, que me caíal às mãos e desciam como um longo terço. Cuidado com o véu!, gritavam. Eram 7 metros de tule. Na horinha de sair, puseram-me às mãos uma linda e úmida orquídea. Na igrejinha antiga, o noivo já aguardava no altar. Ela nunca me parecera tão grande. Mas cheguei, levada por meu pai , recebida pelo quase meu marido, Marlei. Padre André abençoou a união e, ao som da Ave Maria, cantada por Dona Mariazinha Gerk, trocamos aliança, jurando fidelidade e permanência eterna da união. Até hoje não sei como coube tanta gente na pequena casa de meus pais. Mas partimos o bolo, assinado por Edméa Almeida, amiga de Cantagalo, com champanhe, aplausos, discurso de Alfredo Mansur e muita alegria. Mala preparada, roupa trocada, partimos para o Park Hotel, em Friburgo, onde pernoitaríamos antes de seguir para Cabo Frio.É, até o pronome mudou. Agora éramos nós e a vida que com suas armadilhas, surpresas,tempestades sombrias, ventos ameaçadores, mas também muitas manhãs de sol claro, luz. Se pudesse contar tudo a partir daí, resultaria um romance de muitas páginas. Ainda chove, é certo. Mas também o dia permanece claro e há flores no meu jardim. Muitas flores. O saldo, em 40 anos? Positivo. Três filhos sadios, honestos, de formação superior, amigos e respeitados. Tem Alice, minha neta linda , inteligente e muito amada. E nós, Marlei e eu. Muito diferentes daquele 20 de setembro de 1969. O tempo nos arredondou, nos fez Dona Madalena e Seu Marlei.Não importa mais se houve sombras porque as vencemos, porque aprendemos a deixá-las passar e esperar o Sol. Não tenho medo, não temo a dor. " Pra onde tenha sol/ é pra lá que eu vou."

Comentários

angelo pessoa disse…
Madá, eu disse isso a um amigo dias atrás: "Prefiro o primeiro livro de Madalena ao segundo..." e ele concordou na hora. Disse que se emocionara muito mais ao ler o primeiro. Os dois livros são ótimos, diga-se de passagem, mas você é sublime quando se trata de reminiscências, imbatível!!

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