O eu profundo e outros eus

Aparecida, Fernanda, Virgínia e eu chegamos em Trindade, distrito de Paraty, sexta-feira, 3 de julho, após horas de viagem pela Canoa da Serra, saindo de Cordeiro. Assustou-nos/me a pousada( estranha) e a marca 3M: mar, morro e mato, charme do lugar, não para pessoa tão urbana quanto eu.Mas sobrevivemos e até tomamos um suco no Bar da Larica ( Seria ali Amsterdam?). À tarde, finalmente, Paraty.Cultura em plenitude espalhada aos quatro cantos.Rodamos e chegamos à casa do prefeito, recebidas pela primeira dama, amiga de Virgínia, para apanhar nossos ingressos antecipados para as tendas escolhidas. Estávamos aflitas para assistirmos à 1ª mesa, "O eu profundo e outros eus", com a presença do mexicano Mario Ballantin e o brasileiro Cristóvao Tezza.Estes debateriam a questão da obra autobiográfica, a presença do eu do escritor na ficção, onde o comum é o eu lírico, o outro eu do autor . O brasileiro primava pela discrição e a elegância. Acabou meio " engolido" pela simpatia, o humor e a excentricidade do mexicano, que logo declarou ser imperdível uma viagem ao Brasil.De túnica preta e o antebraço mecânico finalizado por um gancho em forma de pênis, que exibia com frequência,Ballantin dispensou tradutor e fez a plateia rir e aplaudir suas tiradas cheias de humor. O ponto de vista dos autores sobre o tema também divergiu. Ambos iniciaram pela leitura de trechos de uma de suas obras. Ballantin leu trecho do título que lança no festival (e que depois autografa ainda no Rio e em São Paulo), "Flores", espécie de coletânea de microcontos, entrelaçados de forma enviesada, que representa “uma estufa dedicada ao cultivo de raras mutações”, como afirma Joca Reiners Terron, no prefácio da edição brasileira. Isso porque o autor enche seu livro de elementos como próteses, mutações, rituais religiosos obscuros e situações desconcertantes, de uma beleza perversa. Talvez por isso mesmo, "Flores" seja, como acrescenta Terron, “a introdução perfeita” à sua obra. Não li o livro, mas referências a ele. Tezza é um dos escritores brasileiros mais premiados nos últimos tempos, com a obra autobiográfica "O Filho Eterno". Para este, a ficção é um modo de compreensão do mundo, que não se confunde com as linguagens da religião, da moral, da ciência, da informação, mas se apropria de todas elas. “Para mim, o fato biográfico é mais um elemento da realidade, como qualquer outro”, disse o autor.Já Bellantin discorda, dizendo: " Procuro me distanciar do que escrevo para me tornar leitor de mim mesmo. Tento indicar o que há de vazio e de silêncio nos textos, escapando de estruturas como autor, conjuntura, época."Os escritores leram trechos de suas obras: Bellantin , de Flores, e Tezza, de Um erro emocional, seu romance ainda inédito. Particularmente, estou lendo " O Filho Eterno", que narra a difícil recepção de um pai ( no caso o autor) com um filho que nasce com síndrome de Down. Embora autobiográfica, a obra é narrada em 3ª pessoa, mostrando a tentativa de distanciamento do narrador personagem.Estou gostando , apesas do tom extremamente realista de Tezza. Ler é penetrar num universo tão belo quanto de infinito aprendizado.

Comentários

angelo pessoa disse…
Gostei, Madá.
Acho até que vou reler O filho eterno depois deste seu 'post'.
Abraços
Angelo Pessoa

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