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Deserto... eu tenho?

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Um bom crítico literário é capaz de nos convencer de imediato a ler um livro. Se não o temos em mãos, suas palavras ficam a nos atormentar numa busca atroz. Pois assim tem sido comigo desde que li um comentário no Prosa e Verso de O Globo , sábado último sobre o livro que vai ser lançado na Bienal do Rio, chamado " No teu deserto", do escritor português Miguel Sousa Tavares, autor de "Equador" e "Rio das Flores". Li o segundo e adorei. Mas o que vem me tentando é a apresentação do novo livro dele, por um escritor que desconheço, mas que o fez com uma propriedade, com uma autoridade de quem conhece a boa obra, com uma sabedoria demonstrada nas leituras citadas e comparações feitas que me encantou. Seu artigo trata de " desertos". Diz que todo escritor tem seu deserto. Que o de Fernando Pessoa está numas ladeiras em Portugal, que o de Machado de Assis é o Rio de Janeiro do seu tempo, que o de Clarice Lispector está na capacidade de dizer no indizív...

Angelo, para você, leia

Por que falar de Manuel Bandeira exaustivamente se Cordeiro, nós todos temos você, Angelo? Uma pessoa de um talento ímpar, com grande habilidade no campo das artes, leitor assíduo e escritor reconhecido no país, premiado em inúmeros concursos e ainda dono de um humor contagiante, perto de quem não se consegue deixar de rir, tamanha a capacidade de brincar e provocar riso até com um simples olhar. Recordo-me de suas investidas no meio cultural em Cordeiro. Escreveu e dirigiu algumas peças de teatro que fizeram sucesso, produziu um curta metragem de nome longo ( não me arrisco a tentar dizer o título) que venceu o " Revelando Brasis", é escritor, poeta, artista nato em múltiplas linguagens. Frente ao Departamento de Cultura de Cordeiro, deixou suas marcas no pouco tempo que lhe foi destinado. Marcou-me o inovador concurso de fotografias. Lindo! E ainda é um amigo e tanto. Imaginem leitores ( tenho uns dois +-) que ele lê o meu blog e cobra quando fico preguiçosa e não faço post...

Vamos para Pasárgada?

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Manuel Bandeira foi o grande homenageado da VII FLIP/09. Merecida homenagem ao pernambucano ( de Recife), poeta que foi muitos, sendo um só, com uma obra que transita no simbolismo, no modernismo, com nuances românticas e realistas, tanto nos versos quanto na prosa.Presente em sua obra, o cotidiano, o misticismo, a lembrança da infância, da terra natal, a tristeza com a doença, a dor da solidão, a sensualidade, a condenação à morte e a superação, tudo numa poesia muitas vezes prosaica, mas grandiosa.Em plena infância, aos 8 anos, descobre-se tuberculoso e começa a luta pela sobrevivência.Em 1913, foi para a Suíssa em busca da cura.Em 1914, retorna ao Brasil, em função do início da I Guerra Mundial e soube que era grave seu estado de tuberculoso. O médico não lhe deu esperanças de cura. Voltou, investiu na vida e só morreu em 1968, não como vítima da tuberculose. Mesmo assim, muitas vezes foi vítima da melancolia, das limitações impostas pela doença, da solidão e, então, criou " Pa...

O eu profundo e outros eus

Aparecida, Fernanda, Virgínia e eu chegamos em Trindade, distrito de Paraty, sexta-feira, 3 de julho, após horas de viagem pela Canoa da Serra, saindo de Cordeiro. Assustou-nos/me a pousada( estranha) e a marca 3M: mar, morro e mato, charme do lugar, não para pessoa tão urbana quanto eu.Mas sobrevivemos e até tomamos um suco no Bar da Larica ( Seria ali Amsterdam?). À tarde, finalmente, Paraty.Cultura em plenitude espalhada aos quatro cantos.Rodamos e chegamos à casa do prefeito, recebidas pela primeira dama, amiga de Virgínia, para apanhar nossos ingressos antecipados para as tendas escolhidas. Estávamos aflitas para assistirmos à 1ª mesa, "O eu profundo e outros eus", com a presença do mexicano Mario Ballantin e o brasileiro Cristóvao Tezza.Estes debateriam a questão da obra autobiográfica, a presença do eu do escritor na ficção, onde o comum é o eu lírico, o outro eu do autor . O brasileiro primava pela discrição e a elegância. Acabou meio " engolido" pela simp...

FLIP/2009: EU ESTIVE LÁ

Ir à FLIP é ter a certeza de poder voltar culturalmente renovado. É passar uns dias em estado de graça, rebatizado pela palavra de quem sabe laçá-la na escrita e soltá-la para que outros a alcancem na leitura e a "definitivem" na alma.Desconfio de que seja lá a tão sonhada Pasargada, de Manuel Bandeira. Ele, que foi o patrono da 7ªedição do evento, e que morreu sem ter visto a terra que idealizou.Mesmo sem estar fisicamente no local, ele era o amigo do rei, que enfeitou a cidade para mim e para "ty", com as personagens criadas pelo nosso poeta, entremeadas à sua história e aos locais onde a viveu. Manuel , Bandeira de nossa poesia, certamente juntou-se a Irene, a quem dedicou um lindo poema e, da mesma forma como descreveu a acolhida de sua negra querida no céu, deve ter sido recebido: " Entra, Manuel, aqui você não precisa pedir licença". De lá, ele enviou uma imensa nuvem de poesia que pairava sobre Paraty, cidade poética por tradição e proteção dos d...

Gerâneos em flor na janela

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Em criança ouvia uma música que dizia: " Felicidade é uma casinha simplezinha /com gerâneos em flor na janela/ Uma rede de malha branquinha/ E nós dois a sonhar dentro dela." Essa definição tão singela quanto irreal, hoje posso ver, acompanhou-me por muito tempo.Ser feliz então era ter uma casa com a jardineira repleta de gerâneos em flor.E eu sonhava, imaginava, desenhava essa casa e me sentia dentro dela. Faltava sempre a rede branquinha e o " nós dois" , mas o sonho se mantinha. Sonho e tempo acabam passando. Muitas vezes o tempo carrega consigo o sonho e o deixa livre para se transformar em realidade na vida do sonhador. Nem sempre o sonho se realiza inteiro. Muda a cor da rede, o tamanho da casa e deixa apenas um sonhador dentro dela. Aos outros entrega a secura da vida prática, sem nenhuma nuance de romantismo. Bom que tenha conservado os gerâneos em flor da minha janela.

Entre o ontem e o hoje

É deveras deliciosa essa viagem no tempo que tenho feito ultimamente. O motivo é um só: recompor a história de Cordeiro. E o itinerário é a ida a um passado bem longínquo , final do século 19, e aterrissar num povoado recém surgido, tão pequeno e tão simples , mas de pessoas empreendedoras e sonhadoras, a quem muito Cordeiro deve. Depois, voltar num raio de tempo ao hoje e a esta cidade , produto de bons anos de história e comparar um e outro tempo, numa mistura de saudosismo e observação do real. Saudade até dum tempo que não vivi, dos sentimentos que não senti, das construções de que minhas mãos não participaram.Salvar o passado é como buscar a salvação para si mesmo. Por isso, insisto.E o curioso é que as pontas do tempo, minhas estações de partida e chegada guardam entre si 80 anos de distância. Pesquiso na "Gazeta de Cordeiro", exemplares de 1897 e 98, por enquanto, e registro na Gazeta de Cordeiro contemporânea, jornal que se empenha em não perder a vida útil. A Gazeta ...