Postagens

Mágica da Modernidade

Houve o tempo em que parentes e amigos se visitavam aos domingos, nas férias e ocasiões importantes. Tempo do rádio numa prateleira na sala de visitas, mudo durante o "estar juntos" para não interferir na prosa daquele momento . Quem não podia escrevia cartas, mandava cartões de aniversário, de Natal e telegramas quando a notícia era urgente.Ah, o carteiro era mais que isso, era uma figura esperada, principalmente se deveria trazer carta da pessoa amada. Mudou o tempo, acabaram-se os rádios, as prateleiras, as visitas, cartas e telegramas. A família ficou pequena e distante ainda que sendo muitos, na mesma casa, cada um à frente da sua televisão ou do seu computador. Este último virou milagreiro. Desconhece distâncias, reune familiares, informa, aproxima, provoca saudade, traz alegria.Através dele reencontrei Paulinho, um primo tão querido , distante há tantos anos. Não tive dúvida quando vi sua foto no Orkut e a palavra Leninha. Era assim que me chamava quando convivíamos. C...

Zebra de listras alaranjadas

Imagem
É, isso mesmo, deu zebra no jogo Brasil x Holanda. Certo que a zebra tinha listras alaranjadas, fato que forçou a seleção brasileira a usar a camisa azul que, segundo os supersticiosos, não traz sorte à equipe.Outros, como já era de se esperar, culpam Dunga, o técnico, judas exposto à malhação da torcida.Na berlinda também os jogadores, colocados em vitrine de cristal, prontos para piadas e pedradas.Estes fatos me incomodam, levam-me a repensar o nossa condição de povo sempre perdedor em questões de muito maior importância e que não procura culpados, aceita pacificamente ser lesado e se diz um povo feliz, ainda que com vida de gado marcado,como diz Zé Ramalho. Já tivemos técnicos de futebol e jogadores que nos contemplaram com 5 Copas do Mundo. Mas não encontramos governantes que pusessem fim à violência, à pobreza, à desigualdade social, à fome de poder e de dinheiro dos políticos. Quando vamos comemorar uma vitória em pelo menos um desses aspectos? Luciano Huck chamou Dunga de burr...

South Africa 2010

Imagem
Bonito símbolo o desta Copa do Mundo na África.Faz-me lembrar o mundo caminhando a passos largos numa curva que o levará ao ponto de partida. Mas, e a chegada? Chegar é estranho, é triste. Lembra acabar.É preferível, então,voltar. É o que faço. Volto a 1958, à 1ª Copa do Mundo em que o Brasil foi campeão. Foi televisionada, mas poucos tinham o mágico aparelho. Ouvíamos os jogos pelo rádio. Papai fez um curso de rádiotécnico por correspondência e montou um para nós. Ele não tinha ainda uma caixa de madeira ( veio depois) mas nos reuníamos em torno daquele emaranhado de válvulas e fios que transmitiam o som esperado: "Goal!!!!!!!!" E o Brasil fez muitos "goals" que marcaram época. O técnico ouvia Didi, que orientava da escalação às possívei substituições. ( Li isto hoje.) Muitos dos nossos atletas eram pobres e, em função disso, na comissão havia até dentista. Vai que desse dor de dente em algum jogador. Tempo em que os termos eram em inglês: " goal, goalke...

Verde e amarelo

Imagem
Essas cores são inconfundíveis: são Brasil. No início da história, verde e amarelo tinham o mesmo peso e a mesma intensidade na Terra de Santa Cruz. Ou quase, pode ser que houvesse mais verde nas matas que ouro sob a terra. Desconheço a precisão deste cálculo. Então vieram os invasores. Logo descobriram o ouro. Bastou uma pequena pista dada pelos inocentes indígenas e o amarelo foi minguando, maior parte levada por navios rumo à Europa.Ia ficando o verde, se bem que bastante contrabandeado em se falando do pau-brasil, sangue brasileiro que causava cobiça aos estrangeiros. Quando foi criada a Bandeira Nacional, ainda pesava o ouro e florescia o verde sob um céu de anil e um desejo branco de paz. Joaquim Osório Duque Estrada, autor da letra do Hino Nacional , afirmou que " nossos bosques têm mais vida" . O hino , que só foi oficializado em 1º de setembro de 1971, correu risco de ter alterada a letra em função do extermínio do verde. Agora, é impossível, pois já são oficiais ban...

Há 40 anos...

Imagem
Há 40 anos, 20 de setembro caiu num sábado. Sábado ensolarado como costuma ser na Primavera. Devo ter acordado com os olhos meio inchados, pois na véspera chorei um pouco ao me despedir do meu travesseiro, da minha cama, de mim mesma, pois afinal ,esta que eu vivera até agora tinha sua última noite de solteira, para se transformar numa outra, desconhecida para mim.De repente foram chegando pessoas, a casa ficou cheia, telegramas, presentes, abraços, cartões, brincadeiras, parentes distantes, amigos do noivo que eu nem conhecia, a hora passando, o momento chegando ... chegou. O vestido, inteirinho de crochê, feito por D. Zezé Guzzo, fiou perfeito. O penteado, tão artificial, visto agora, permitiu o encaixe da grinalda toda em pérolas, que me caíal às mãos e desciam como um longo terço. Cuidado com o véu!, gritavam. Eram 7 metros de tule. Na horinha de sair, puseram-me às mãos uma linda e úmida orquídea. Na igrejinha antiga, o noivo já aguardava no altar. Ela nunca me parecera tão grande...

Deserto... eu tenho?

Imagem
Um bom crítico literário é capaz de nos convencer de imediato a ler um livro. Se não o temos em mãos, suas palavras ficam a nos atormentar numa busca atroz. Pois assim tem sido comigo desde que li um comentário no Prosa e Verso de O Globo , sábado último sobre o livro que vai ser lançado na Bienal do Rio, chamado " No teu deserto", do escritor português Miguel Sousa Tavares, autor de "Equador" e "Rio das Flores". Li o segundo e adorei. Mas o que vem me tentando é a apresentação do novo livro dele, por um escritor que desconheço, mas que o fez com uma propriedade, com uma autoridade de quem conhece a boa obra, com uma sabedoria demonstrada nas leituras citadas e comparações feitas que me encantou. Seu artigo trata de " desertos". Diz que todo escritor tem seu deserto. Que o de Fernando Pessoa está numas ladeiras em Portugal, que o de Machado de Assis é o Rio de Janeiro do seu tempo, que o de Clarice Lispector está na capacidade de dizer no indizív...

Angelo, para você, leia

Por que falar de Manuel Bandeira exaustivamente se Cordeiro, nós todos temos você, Angelo? Uma pessoa de um talento ímpar, com grande habilidade no campo das artes, leitor assíduo e escritor reconhecido no país, premiado em inúmeros concursos e ainda dono de um humor contagiante, perto de quem não se consegue deixar de rir, tamanha a capacidade de brincar e provocar riso até com um simples olhar. Recordo-me de suas investidas no meio cultural em Cordeiro. Escreveu e dirigiu algumas peças de teatro que fizeram sucesso, produziu um curta metragem de nome longo ( não me arrisco a tentar dizer o título) que venceu o " Revelando Brasis", é escritor, poeta, artista nato em múltiplas linguagens. Frente ao Departamento de Cultura de Cordeiro, deixou suas marcas no pouco tempo que lhe foi destinado. Marcou-me o inovador concurso de fotografias. Lindo! E ainda é um amigo e tanto. Imaginem leitores ( tenho uns dois +-) que ele lê o meu blog e cobra quando fico preguiçosa e não faço post...