PURO DEVANEIO

Desde o Dia dos Namorados eu não escrevia.



                                       EFEITOS DESTA FOLHA


                                                        Escrever é exercitar a humildade,
                                   e surpreender-se com a (des) coberta do texto.

Todo escritor tem, a princípio, o instinto de proteger o texto que acaba de produzir. Ao mesmo tempo em que se orgulha dele, acaba por encontrar tantos defeitos visíveis ou encobertos nas entrelinhas que o esconde com medo de que se tornem públicos. Então, retoca daqui, retoca de lá e acaba por deixá-lo sair à procura de um leitor paciente.
A partir daí, a sensação é de que deixou de ser seu o texto que se foi. Se o reencontra, fica com receio de que não se reconheçam mais  como pai e filho, gente do mesmo sangue, gerado que foi ele com muito amor. Também teme perceber que a relação que estabelece com o leitor possa não ser tão  cordial e o texto encolher-se ressentido.
Essa descoberta não é recente, mas a vivência dela o é.
Quinta-feira à tarde, muito calor e o horário marcado no salão para fazer as unhas. Espaço novo, manicure nova e a expectativa do resultado. O ambiente é perfeito para o que se propõe e deixa à vontade os que lá se encontram.
Sentada, dou conta do porta-revistas.
Dentre poucos exemplares da espécie, um da Folha dos Municípios. Pelo desarranjo em que se encontra, percebe-se que já fora manuseado. Sinto um sobressalto no peito em pensar se  alguém  já se deparara  com o texto da coluna que assino. Quase pergunto à manicure, mas não ousei fazê-lo.
Passa um tempinho e ouço um ruído de papéis se roçando e entreolho de soslaio. Uma mocinha passa as folhas como se procurasse algo que a interessasse. Mantive o olhar. Ela olhou a coluna e olhou para mim. Abaixei a cabeça. Ela continuou a ler porque não ouvi por um tempo o barulho da folha passando.
- Olha o chuchu, o quiabo e a couve! Quem vai querer?- falou ela em tom de vendedor de rua. Queria ter vivido esse tempo. Dirigi-lhe o olhar, assustada com a voz que repetira o que eu havia escrito. Sorri. Ela também. Era a crônica sobre a horta da Dona Maria.
- É a senhora, então...
_ Sim, afirmei , enfrentando a timidez
_ Olha, sempre espero encontrar esse jornal e leio todos os seus textos. Agradeci. Ouvi  outras vozes no salão que concordaram .
Valera então o sacrifício do parto. Valera então ter permitido que o texto partisse em busca do leitor.
Puro reflexo desta FOLHA que o abriga.
                                   
 Madalena Tavares
13/09/12




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