O pardal é um pássaro azul
O PARDAL É UM PÁSSARO AZUL
Os anos 80 foram bem efervescentes na
história do Brasil.
A ditadura começava a ceder diante da pressão
dos países democráticos e das campanhas e movimentos internos movidos
pelo povo. Sentindo que o fim estava próximo, o governo militar abrandava o
controle e as torturas cessavam. A imprensa começava a retomar o direito de se expressar
livremente e falar sobre os acontecidos desde o fatídico 31 de março de 1964,
já era uma possibilidade.
Na Faculdade de Filosofia Santa Doroteia, em
Nova Friburgo, o tema já era discutido sem medo da presença de olheiros dos militares que marcavam e calavam vozes contrárias. Lecionava na referida
faculdade quando foi anunciada uma palestra com a escritora Heloneida Studart.
Vinha falar sobre o livro de sua autoria “
O pardal é um pássaro azul”.
Habitante do interior, portanto conhecedora
dos pardais como sendo aves pardas e destruidoras de hortas e pomares, fiquei
intrigada com o título do livro que, numa primeira interpretação, dá um tom de
nobreza à referida ave, através da cor azul possivelmente atribuída ao sangue desses
pássaros, como possuem os da família real inglesa.
Assisti à palestra.
Na verdade, o livro aborda o regime militar e
suas atrocidades em nome da ordem, da moral e dos bons costumes, como diziam em
discursos inflamados os generais das forças armadas do e no poder.
Falando de suas experiências como militante
contra a instalação da ditadura desde o seu início, Heloneida relatou o caso de
uma amiga cujo filho era universitário na década de 60 e engajado na luta
contra o referido regime. Numa certa manhã, o jovem saiu para panfletar e não mais voltou. Desesperada,
a mãe se determinara a encontrá-lo a
qualquer preço, percorrendo cadeias, cárceres, hospitais, levasse o tempo que
levasse. Demorou, mas o milagre aconteceu. Só que foi difícil reconhecer seu
próprio filho, uma vez que estava debilitado física e mentalmente. Certamente
porque resistira à tortura para delatar o grupo a que pertencia, cortaram parte
da língua dele. Conseguiu levá-lo consigo a preço do silêncio.
Assim, antes mesmo de ler o livro, entendi a
metáfora do título dado pela autora. Realmente, pardais são pássaros não conhecidos por nenhum
atributo que os diferencie dos pássaros comuns, mas incomodam o homem e ameaçam
seu poder, sua força. Eles irritam, assaltam hortas e pomares ao ponto de os donos
colocarem espantalhos para afugentá-los. Como eles, muitos homens e mulheres que
destemidamente enfrentaram a ditadura, tirando o sono dos poderosos. Agiram
como os pardais, tornando-se, por isso, nobres de sangue azul dentro da realeza
brasileira.
Graças a tantos “ pardais humanos” que
durante mais de 20 anos incomodaram os donos da
horta militar que era o Brasil, hoje já não precisamos camuflar a quem
Chico Buarque se referia quando cantava “ Hoje você
é quem manda, falou tá falado...” Hoje, de fato, o povo manda, se quiser.
Madalena
Tavares

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