ENTREOLHAR(ES

DEVANEIO & BORBOLETAS



Tenho olhado e entreolhado os jardins e não vejo borboletas.
Eram tantas e tão íntimas até há bem pouco tempo e migraram não sei ainda o motivo. Tão belas quanto frágeis, para onde teriam ido?
Vai ver se revoltaram, removeram a pedra que Drummond deixou no meio do caminho e se libertaram. Mas por que fizeram isso se voavam livres nos roseirais, se podiam beijar tanto as orquídeas quanto as flores de canteiros menos nobres?
Podem ter se revoltado também com a própria origem. Li que elas nascem lagartas (nada contra estas, mas...), rastejam pelo chão e é desta perspectiva triste que entram em contato com o mundo. Depois, tornam-se crisálidas e ficam presas num casulo, alheias ao mundo, sofrendo transformações físicas que as possibilitem sair no momento certo e voar. Mas o voo não se dá de imediato. As asas , no início, são enrugadas e dificultam o passo para a liberdade.
Quando conseguem de fato voar, passam a ver do alto o chão onde rastejaram e sofreram. São livres. Não escolhem os tons nem o traço, mas sua veste é linda, parece um bordado multicor. E não é comum borboletas com o mesmo vestido.
Enquanto vivem, encantam os olhos humanos e têm todas as flores do mundo ao seu dispor para a troca de carícias. Espertas, quase sempre conseguem driblar os caçadores inconvenientes. Fogem da prisão, mas não evitam o estado final. Morrem, mas a renovação ocorre.
Fico intrigada enquanto as busco com o olhar, Será que houve algum “Massacre de Borboletas” e não fui informada? Durante um período negro de nossa história isso acontecia a pessoas que combatiam em nome da defesa de sua ideologia. Sumiam do nada e só alguns voltavam, embora destroçados pela tortura.
A vida das borboletas lembra um pouco a nossa própria existência.
Desde que nascemos, frágeis e dependentes, são muitos os esforços e os sofrimentos por que temos que passar para crescer e assumir os próprios passos. De posse destes, até acreditamos que estamos livres. Nada. Em muitas ocasiões sentimo-nos lagartas, dentro de um casulo e à espera de que as asas percam as rugas para tentar algum voo. E quando enfim nos sentimos vendo o mundo lá do alto, precisamos aterrissar. Por os pés no chão com cautela porque o sonho não se concretizou e recomeçar todo o processo se faz necessário. Como a vida é feita de ensaios para uma peça sem nome e data de estreia , retomamos a caminhada sem revolta.
Mas voltando às borboletas, seres de tanta beleza e encantamento, sinto que a ausência delas tiraram muito da poesia da natureza.Também era comum entrarem em nossas casas onde pousavam nos objetos ou ficavam quietas, presas na parede, como a especular a nossa vida. Se não as incomodasem, ali permaneciam por um bom tempo.Agora, estão sumindo.Podem ir porque estão eternizadas na literatura, nos versos que as denominam “seda viva”, “bordado do véu do dia”, “pétala da vida”, dentre outras exressões de rara poesia. Mesmo no cancioneiro popular estão presente. Bomba nos meios musicais o chamado gênero “ sertanejo universitário”, que se impõe aos nossos ouvidos e uma dessas mostras diz: “ Borboletas sempre voltam e o seu jardim sou eu.”
Fica então o meu apelo: Sumam não , amigas , pois entre o planeta e o sem fim, faz bem ver flutuarem as asas de uma borboleta.

Madalena Tavares

08/08/12











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