DAS QUARESMEIRAS

Nas suas flores roxo tão claro”, guardam
“Um tom de saudade lilás”


Foi sem nenhum propósito que as revi.
Também foi num simples levantar de olhos de dentro do carro que me deparei com elas.
Poucas e silenciosas, mas imponentes, destacavam-se meio à mata já um tanto rala , mas resistente ao tempo e à ação destrutiva do homem: a Mata do Posto.
Ah, então continuam a marcar época aquelas árvores que pontuaram a minha fantasia de menina atenta às coisas e fatos ao seu redor, pensei . Naquele tempo, da janela pequena da modesta casa em que morava , conseguia flagrar as primeiras florinhas roxas que despontavam no morro em frente, ainda cheio de árvores. Eram as quaresmeiras. Denunciavam que, após as alegrias do Carnaval, começava um novo tempo. Alertavam o povo, com seu manto roxo, da necessidade de meditar sobre o sofrimento de Cristo e as dores de Maria, sua mãe.
Alegro-me por rever e ainda poder sentir o efeito das quaresmeiras redondas e roxas da minha infância. Quando surgiam as primeiras florezinhas, mamãe começava a nos alertar sobre a mudança que o tempo exigia. As imagens de santos que possuíamos eram cobertas com um pano roxo. O rádio, que ficava numa prateleira na sala, seria ligado apenas para se ouvir A Voz do Brasil e a novela O Direito de Nascer. Fazia sentido, vejo hoje, pois as notícias eram tristes em sua maioria e a novela, marcada pelo sofrimento infindo de um menino criado longe da mãe que se recolhera num convento, fugindo do amor proibido pela família.
Mas voltando à casa simples da minha infância, revejo as jarras vazias durante a quaresma, mesmo estando florido o jardim. E nós começávamos a frequentar a “ via sacra” de Jesus” na igreja. Um ritual que teve origem na época das Cruzadas ( séc XI ) quando os fiéis percorriam na Terra Santa os lugares sagrados da Paixão de Cristo e que é reproduzido no Ocidente com a peregrinação feita ao longo da Via Dolorosa ,em Jerusalém, ou em sua representação. Eram XIV estações, sendo que agora somam XV, com a inclusão do quadro da Ressurreição.
A partir de quinta –feira santa, silêncio, abstinência e oração.
A ordem era o recolhimento.
Assim se fazia até o sábado, com a comemoração da ressurreição. Missa de Páscoa, almoço especial e o mais esperado, o Baile de Aleluia, no clube, sempre com muito romantismo sentido e retribuído nas trocas de olhares, apertos de mão, rosto colado na tímida emoção que a música provocava. Eram mostras de que um novo tempo se impunha.
As quaresmeiras então começavam a perder as flores que caíam e se aninhavam aos pés da árvore mãe. Certo se transformariam em alimento e se fortaleceriam para que. no próximo ano, recobrissem as mesmas árvores e lembrassem o povo da necessidade de olhar para dentro de si, numa necessária revisão de vida. Sacudiriam novamente o coração humano para que lançasse ao vento todo e qualquer sentimento menor e se abrisse ao despojamento, à partilha, ao amor . Logo, logo elas, as quaresmeiras, já não seriam distinguidas de longe, pois se igualariam no tom verde das demais companheiras da mata.
Para surgir um novo colorido, só quando setembro chegasse, dando passagem aos ipês.
Cordeiro possui em seu cenário principal uma linda espécie de ipê amarelo que todo ano doura o chão ao seu redor.
Mas hoje o objeto entreolhado são as quaresmeiras.
Sim , elas que “Nas suas flores roxo tão claro”, guardam “Um tom de saudade lilás”

Madalena Tavares

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