Não fiquei;sempre fui

Deixaram junto aos meus pertences o livro " Onde deixei meus óculos?", de Martha Weinman Lear e o fato me instigou, não a ler o livro, mas a pensar no que ele teria a ver comigo. Perdi da lembrança o início do meu " esquecimento" de objetos que me circundam. Nessa viagem de retorno no tempo concluí que o grande problema é de pessoas que ficam assim porque eu sempre fui. Objetos, datas, nomes nunca fizeram parte do meu universo de preocupações. Claro que esse "esquecimento" ou mesmo "troca" ou ainda a "mistura" dos dois já me colocaram em situações embaraçosas, mas nunca comprometedoras. Se me preocupo em não perder meus óculos, chave, caneta, bolsa, acabo catando tudo isso do alheio. Se relaxo, deixo tudo para trás.Difícil é o trabalho que dou às pessoas com quem convivo. "Viu meus óculos?" "Sabe onde deixei minha bolsa?" "O carro está ali; alguém sabe da chave ? Às vezes, só em ler o riso das pessoas identifico o local. Até cartão de crédito some. Tenho agenda , anoto tudo, mas não a consulto e quase sempre não sei por onde ela anda. Acontece de eu ligar para casa e pedir que levem meus óculos no trabalho e , antes de responderem, deparo-me com eles diante de mim. Se
marco compromisso, anoto dia hora , mas mentalizo outra informação e pronto, dá tudo errado. Falam que o celular tem agenda e eu deveria fazer uso, mas nunca sei onde ele está e quando sei, esqueci-me de carregar. Mas não troco sentimentos, não perco o gosto pelas palavras, não esqueço as pessoas que amo. Nunca perdi a fé em Deus nem a esperança. Então não estou, sempre fui, não esquecida, mas desligada .

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