Gaivota reaprendendo a voar



Gaivota reaprendendo a voar

       Há também o desaprender. 
           Diferente de esquecer, desaprender é fruto do desuso, da inércia, do cansaço, do não querer 
           também.Mas um não querer que dói porque é involuntário, fruto da falta de espaço na pauta
           da lida, da vida que impõe outros quereres.
           A vida é uma personagem de personalidade forte. Ora permite planos, ora os muda de cena , 
           de tempo, substitui o texto, troca os atores... em fim, quando se vê, o romance é outro e o que 
           antes se sabia, precisa-se  reaprender para continuar a viver.
           Difícil ser gaivota e não voar depois de tanto esforço na aprendizagem. Difícil ficar no campo, na 
           planície, no ninho, mesmo que outras gaivotas estejam em volta.
            Escrever sempre foi meu voo de estimação. Voo simples, quase rasante, mas voo, sensação de 
           liberdade, de intimidade com as palavras, de parir  textos e agasalhá-los, com medo que se 
           exponham indefesos ao mundo.
           Se não escrevo, sou gaivota que não voa, que não vê mais o mundo com a sensação de estar
           sobre ele, mas de se sentir  sob, frágil, de alma vazia. 
           Mas eis que a vida acena e convida. Faz o tempo se impor e coloca a folha em branco no ar, 
            exigindo um voo ara alçá-la. Então as asas se espreguiçam,  se exercitam e ensaiam  o desejado 
             movimento.
           Sentem que o impulso não foi esquecido, exige apenas coragem. Basta um segundo e já se 
           sente no ar. Pega a folha das mãos da vida, junta ideias com palavras, motivos com emoções, 
           engravida e dá-se o parto do  texto.
           Este acabou de nascer.
            Sou gaivotamada reaprendendo a voar.
                                                    Madalena Tavares
                                                         02/02/1

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