Confissões de uma chave

Confissões de uma chave

A verdade é que fora parar naquela casa  sem querer.
Vivia bem e confortavelmente embalada dentro do manual de instruções, cheirando a novo, na agência  da Volkswagen, no centro da cidade.
Não sabia ,porém, do que a aguardava. Da alegria com que seria  recebida naquela noite festiva.  Chegou no carro zero, um fusca branco, envolto numa fita vermelha, com um enorme laço, chamando atenção da rua inteira. Dava para sentir o cheirinho de carro novo e aquele era novinho em folha. Mas o que é ser novinho em folha? Só força de expressão, diria alguém querendo explicar o que também não sabia.
A chave acompanhava o fusca, que sem ela não teria sentido de ser. Carro não anda sem chave...E esta também foi enfeitada com um laço de fita branco , prendendo um raminho de flores miúdas.
Carro e chave chegaram pelas mãos do motorista da agência e pararam no portão, à hora combinada. A casa estava toda iluminada e de dentro ecoava  uma música animada. Havia ainda vozes embaralhadas, risos  e o barulho de taças que se tocavam no brinde  continuado.
A buzina chamou a atenção de todos. A música parou e houve uma corrida até o jardim. O pai se adiantou . Em segundos , voltava com a  chave enfeitada. Solenemente a entregou a Marissa, a filha aniversariante que correu para conhecer o presente. As mãos tremiam, mas conseguiu abrir o carro. Sentou e pois a chave na ignição. Deu risada com a resposta sonora do fusca, querendo sair em disparada. Mas contentou-se só em testar. Voltou para a sala , sob o aplauso dos convidados . Abraçou o pai e a festa continuou mais animada.
A partir daquele momento, Larissa e a chave não se desgrudaram mais. Esta morava na bolsa da amiga. Juntas iam à faculdade, à manicure, ao cabeleireiro, à igreja, às festas, sempre juntas. A moça fizera 18 anos. Certo dia, o pai juntou ao chaveiro da filha, a chave da casa. Pronto, a primeira sentiu-se ofendida. Com que então Larissa, agora, tinha liberdade de chegar à hora que quisesse! Tudo bem que era menor, não chegara enfeitada, sem nenhuma beleza, mas precisava estar ali? Misturar-se a ela? Bem que viu o olhar de felicidade com que Larissa recebeu a chave da sua liberdade. Mas  ficasse ela sabendo que recebia junto uma grande responsabilidade. Chavezinha intrometida! Viviam próximas, mas não se falavam. Assim acompanhou por muito tempo sua dona. Ouvia os planos com as amigas, a que dava carona, suas confidências, gargalhadas. Participava de tudo. Veio o dia da formatura de Larissa. A chave aguardava o momento de ver a princesa entrar toda linda. Certo não dirigiria o carro. Mas tudo bem. Surpreendeu-se , quando, chegada a hora, ficara esquecida na bolsa. Ouviu o barulho do carro do pai, grande, bonito, como exigia a chegada de Larissa na cerimônia da formatura. Começou aí um novo tempo para a moça e para a chave do já nem tão usado fusca. Este agora era de menos serventia. Só para as saídas de rotina. Quando saía à noite, era no também bonito e pomposo carro do namorado. Montado o escritório de advocacia, Larissa logo passou a ter seu próprio dinheiro e comprou um carro novo, maior, mais confortável. Guardava a chave do fusca agora na gaveta da mesa de cabeceira. O pai então resolvera vender o fusquinha sem serventia na família. Enquanto não aparecia comprador, foi parar no quintal  da chácara da avó, sujeito aos  efeitos do sol, da chuva e da poeira. A chave foi colocada no aparador da sala de visita.
Em pouco tempo  carro foi parar nas mãos do novo dono, um senhor moreno, forte, que não tinha o menor cuidado com o fusca. A chave, parado o fusca, saía da ignição e era colocada em qualquer lugar. Certo dia, ficou na mesa do botequim. Levaram o dono, bêbado, num outro carro até sua casa. A chave ficou na gaveta da caixa, onde só entrava e saía dinheiro. Passados alguns dias, a filha foi buscar o carro que o pai deixara na porta do bar. Recebeu a chave e partiram. O pai falecera e agora, ela se incumbiria de dirigir o fusca. Na ida, pararam em frente a um prédio, no centro da cidade. A chave reconheceu o lugar . Com a chave às mãos, a moça entrou e leu a placa. “Drª Larissa- Advogada”. Subiram até 0 quinto andar. Entraram quando a secretária as chamou. Ouviu quando ao arrolar os bens do pai falecido, para o inventário, foi citado o fusca, placa... Dª Larissa parou. Lembrou-se do número, do carro, do presente do pai no dia em que fez 18 anos. Pegou a chave sobre a mesa e a admirou com ternura. Um filme passava pela cabeça da advogada. Também perdera o pai fazia quinze dias. Era muita emoção junta para a chave. Cuide dela com carinho, ouviu a doutora dizer, com a voz embargada. Saíram. O fusca os aguardava. Antes de dar a partida, a chave sentiu a intenção da motorista.. Estou louca para me ver livre desse fusca. Quero um carro mais novo. Ao toque da mão para virá-la, a chave se parte. Findava ali sua aventura. Morria feliz, pois fora novamente tocada pelas mãos suaves da amada Larissa , sua primeira dona. Agora...


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