Jequitibá Rosa
JEQUITIBÁ
ROSA
- do Posto de Monta –
A
última edição desta Folha trouxe uma reportagem sobre a maior árvore da Mata
Atlântica, o jequitibá, “árvore
gigante” na língua tupi-guarani. Além das informações e curiosidades sobre a espécie, o texto alerta sobre o risco de extinção que essa exuberante
árvore corre, certamente vítima da
exploração abusiva de madeireiros que visam apenas ao enriquecimento através do
comércio ilícito.
A
reportagem mexeu com meus sentimentos e
instigou minha memória , fazendo-me retomar a infância menina, vivida à beira
da Mata do Posto. Tempos idos, mas bem vividos, desfrutando do ar verde e puro,
do cheiro úmido e adocicado que emanava da riqueza das espécies da mata
semivirgem.
No
início da década de 50, o Posto de Monta, que se formou num espaço tomado da Mata Atlântica, era
cuidado por funcionários públicos pertencentes ao estado, fazendo parte desse
grupo, meu pai, Manoel Tavares.
Tempo em que o poder público se preocupava com a dignidade dos funcionários e
de seus familiares. Assim, tinham estes uma
olaria , onde produziam tijolos e telhas e uma carpintaria para a armação
do telhado e das portas e janelas para construir suas casas, em terrenos
cedidos na área pertencente ao Posto. Casas
simples, é verdade, padronizadas e habitadas por amigos que se respeitavam como
tal.
A
mata fornecia lenha e os deliciosos cachos de coco que papai trazia de
suas inserções por ela. Vinha dela ainda o medo dos barulhos da noite. De muito longe,
ecoavam no silêncio pesado, uivos de lobo e grunhidos de barbados que, segundo contavam,
eram espécies comuns no local, além das temidas jaguatiricas. À noite, todos se
fechavam em suas casas, dormiam cedo e cedo estavam prontos para a luta.
Do
nosso vasto quintal, via-se uma imensa árvore que assustava, mas também
encantava com sua copa de um redondo preciso. Às vezes aparentava sofrer da solidão de a terem
esquecido sozinha naquele local devastado para nos abrigar. Às vezes tinha o
semblante de um inimigo pronto a expulsar os intrusos de perto de si, o que durava pouco, pois na verdade parecia
mesmo é se divertir com o nosso minúsculo tamanho e jeito matuto de ser.
Mostrava-se
altiva, imponente, sempre elegante e bem vestida com o mesmo tecido que variava
apenas nos mais diferentes tons de
verde.
Leninha
e as meninas vizinhas sonhavam em
brincar de casinha debaixo daquela gigantesca árvore e levar para lá as bonecas
de pano , latinhas, vidros e retalhos guardados em surradas caixas de sapato, mas a árvore ficava na casa do vizinho...
O
tempo passou, as meninas da época cresceram, se casaram e administram suas próprias
casas, distante daquela árvore mágica.
O
Posto virou Parque, os funcionários foram sendo levados por Papai do Céu, a
Mata virou um arredondado verde, sem cocos e jaguatiricas, mas a árvore lá está.
Personagem de muitas histórias. Livro único de muitas lições, registro
vivo de todas as transformações impostas
pelo homem.
Lendo
a reportagem da Folha, lembrei-me de meu pai e do quanto também admirava aquela
árvore que sabia ser da nobre estirpe dos jequitibás
rosa, presentes em ricas construções. Nem com esse invejável currículo, é exibida a árvore da minha infância. Pouco se
mostra e poucos a conhecem. Vive escondida no quintal de Dona Esther Estephani,
moradora antiga do antigo Posto de Monta. Ali ela assegura a permanência dessa
espécie que sobreviveu ao olhar ambicioso do homem, aqui, em Cordeiro.
A
Ela, minha reverência.
Sua
bênção, mãe verde da Mata do Posto!
Madalena Tavares
16/10/2012
Comentários