Bolinha de Sabão




BOLINHA DE SABÃO
                               ... dublec dublim...
    
Do sobrado em frente, ouço o riso da menininha no colo da avó, entretida com as bolinhas que voam pelo ar, assumindo um amontoado de cores, parecendo um arco-íris redondo, multiplicado pelo sopro que as empurram pelo ar.
Ela que chegara ali chorando, aborrecida com sabe-se lá o quê, agora esquecia as lágrimas que ainda escorriam pelo rosto miúdo e soltava risadas, batendo palmas para cada nova bolinha que via surgir.
Surpreendo-me.
Então ainda brincam com bolinhas de sabão?
Estou diante de um fato modernamente estranho, meio a tantas formas eletrônicas de conter o choro das crianças, se é que crianças ainda têm tempo de chorar.
Há muito não ouvia o som de uma gargalhada dobrada , estampada no rosto de uma menina ainda pequenina, simplesmente por ver umas bolinhas frágeis se espalhando pelo ar,  voando leves, numa vida breve como a felicidade dos versos de Vinícius de Moraes.
A jovem vovó ri junto nos entremeios do sopro no canudo e as duas passam momentos de total identidade e troca de afeto.
A cena provoca, eu já gosto pouco e, num segundo, meus olhos se debruçam na janela e vislumbram outro tempo, outra realidade, outra vida.
Posso evitar, mas prefiro entreolhar pela pequena fenda que se oferece nua, mas ingênua, num convite ao desfrute pelas veredas dos caminhos que levam ao passado. Fácil chegar, Sinto-me íntima desse caminho, atrelada aos fatos vistos e vividos.
Cheguei.
Reencontrei as calçadas limpas, mesmo que descascadas pela ação erosiva das histórias presenciadas, mas ainda servindo de tapete para os passos da vizinhança, gente simples, de poucas ambições, mas ricas sem reservas de palavras de gentileza: “ Bom dia!” “ Muito obrigado!”, ditas de janelas estreitas ou portas de uma banda só, aberta para a rua, lugar de brincar.
Só de  brincar.
Rua  totalmente de terra, chão batido, onde os  riscos dos quadros da  amarelinha já se tornaram fixos. Quatro tijolos servem de trave e isolam o espaço desejado pela bola de pano, mas bem guardado pelo goleiro durante as “peladas”. Um risco forte delimita no chão a área de cada grupo da queimada, cujos componentes eram escolhidos após um “ par ou ímpar”. Bolas de gude deslizam na terra batida, batendo umas nas outras, buscando a  búlica.( buraco que se faz no chão, onde a bola de gude entra). Vence a partida   quem mais engorda a sacola de pano onde guardam a coleção de bolebas de vidro.
As meninas, rejeitadas pelos garotos, encontram as brincadeiras próprias, Em instantes vão buscar água no  Itororó, onde só encontram uma linda morena que lá deixam  à espera de uma noite que não era nada , para só voltar de madrugada. Ora são  velhas pobres, pobres de marré, marré. Ora são ricas , ricas de marré deci.
Se cansam das outras brincadeiras, pegam  a canequinha e se juntam aos meninos. Nela, colocam água e sabão. Para completar, os canudos de talo de mamona. Local ideal para brincar? Subindo na cadeira, dava direitinho. Agora era só soprar e ver as bolas se formarem e escorregarem pelo ar, leves, lindas, elegantes e de diversos tamanhos. Tudo regado a risadas. Se faz sol, a beirada da calçada é o cenário ideal. Nessa época, felicidade era tecido de fios simples e sem preço.
Mas esse tempo não é, foi.
Passou e levou  consigo a simplicidade. Ficaram as lembranças que  os sons não nos deixa esquecer. Veja o registro da bossa nova, na doce voz do Trio Esperança:
“Sentado na calçada de canudo e canequinha, dublec, dublim/ fazendo uma bolinha, dublec,dublim/ bolinha de sabão...”
Volto o olhar para o sobrado e lá estão a vovó e a menina, aos risos. Olho ao redor e concluo: Calçadas não abrigam mais crianças sentadinhas, nem vizinhos ali conversam à tardinha, ao som das inocentes brincadeiras da meninada. Todos vivem ocupados nos aparelhos pessoais, conectados na internet, isolados até de si mesmos, tendo sempre uma tela à frente dos olhos.
Senti saudade de quando brincava de fazer bolinha de sabão, porque agora, envolvida nesse difícil contexto , só me resta...
                                                FAZER BOLINHA DE ILUSÃO”
                                                                                               Plim!!!!!!!!
Madalena Tavares

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