REALIDADE OU IMAGINAÇÃO?
ENTREOLHAR(ES)
REALIDADE? IMAGINAÇÃO?
Mas
o que é ser real?
Qual
o limite que separa o real do imaginário, se um gera o outro e acabam por se
emaranhar ou se engalfinhar na cabeça da gente, deixando-a temerosa de ter perdido a lucidez?
Creio
que já experimentei essa perda algumas vezes ou me senti no limite máximo dessa
fronteira. Uma delas foi durante uma festa que homenageava a imaginação e a forma de
transformá-la em histórias feitas com tijolos de palavras. O lugar era mágico
por si, cheio de ruelas calçadas de pedras altas, separadas e desiguais, que
desembocam umas nas outras feito rios que perderam a direção do oceano. Carreiras
de portinhas estreitas ladeavam as ruas, parecidas, coloridas fortemente umas,
descascadas pelo sol outras, mas todas portas. Permitem entrada e saída, caso o
mistério que abrigam não agrade ou assuste. Mas nem uma coisa nem outra acontece. Por dentro
perdem o ar misterioso. São bares, restaurantes, lojas de souvenir, bancos,
comércio de artesanatos, livros, bebidas...
E
artistas.
Sentei
no restaurante e, antes de oficializar o pedido, solicitei um vinho.. Suave ou
doce?- indagou o garçom. A falta de intimidade com a bebida silenciou-me por
uns segundos. Mas respondi:- doce. Tomava lentamente a bebida quando vi surgir um arlequim e rodear as mesas,
declamando poemas que me eram íntimos. Num salto, sentou-se ao meu lado,
dizendo:” E,
de galho em galho/andavam as loucas com cestas e toucas/em busca de orvalho.’ Eram versos de Cecília Meireles,
logo reconheci. Por que me coube esta estrofe? O queijo não respondeu e então
deixei-o na companhia do vinho e saí.
As
ruas eram sinuosas ou... Não, imagine se uma taça de vinho as tornaria assim?!
Passei a procurar o restaurante da véspera, onde a massa era acompanhada de um
violão e uma voz maviosa. Mas onde era mesmo? Pelas calçadas, muitos sons,
gente cantando e aquelas portinhas estreitas e iguais.
Na
praça, livros pendiam de árvores, presos em cordas finas e amareladas de
poeira, mas deles saltavam personagens que viviam aventuras que encantavam as
crianças. Sentados nas raízes das árvores de idade no mínimo secular, olhar
fixo nos contadores de história, meninos
de todos os tamanhos e idades viajavam numa condução imaginária. E
pareciam gostar do que viam. Num telão, um angolano e um holandês falavam de
ficção e realidade nas obras de sua autoria. Onde começa uma e termina outra?
Atravessei
a praça. Olho à direita e vejo uma pessoa (ou seria personagem) vindo de longe,
andando e sorrindo. Parei para esperar o vulto tomar forma. Sinto-me
hipnotizada. A figura se aproxima. É
mulher, cabelos louros e presos numa touca de renda e se veste de branco.Com uma das mãos, segura a
cesta na cabeça, e dentro dela, papéis. Lembra o verso recitado pelo arlequim.
Seria louca? Vem sozinha e é dona da rua. Todos se afastam para que passe. Louca
? Está bem perto agora, O vestido é de papel de seda branco, rodado e está todo
escrito. São trechos de Clarice Lispector, identifico. Esqueço o restaurante. Poucos reparam a estranha
personagem. Caminho então com ela, contornando a saia rodada e lendo os textos sedutores. Não sei onde tudo
terminou. Guardei apenas uma passagem : “ Eu nasci amalgamada com a solidão deste exato
instante e que se prolonga tanto, e tão funda é, que já não é minha solidão,
mas a Solidão de Deus.”
Real ou imaginário?
Mas foi em Paraty.
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