Mudaram os domingos?

Mudaram os domingos?
Não é mais ele o primeiro dia da semana que sempre pensei ser o último? Ou fui eu que mudei?
Passava-se a semana aguardando o domingo que surgia ensolarado, com brilho revelador de surpresas.O sono podia esticar um pouco, mas não se acordava com gosto de ressaca, pois que os sábados terminavam mais cedo, com beijos no portão e a certeza de reencontro no domingo. Gosto de domingo era o da macorronada caseira, do frango assado com farofa e o pudim de leite da sobremesa. A casa extremamente limpa e arrumada, flores frescas e cheirosas nas jarras, café fresquinho e o bolo redondo para aguardar as visitas. Vía tudo e aprovava, integrada para não perder a permissão de uma "idinha" até a rua com as amigas. Lá, tudo podia acontecer. Um sorvete, um batepapo agradável, a ida ao campo, ver o "flerte" jogar ou o encontro discreto com esse "flerte" para ver o jogo como desculpa para que nosso olhar se fundisse, as mãos se alcançassem e os lábios, bem, estes queriam , mas nem sempre deviam se aproximar muito. O domingo então era a eternidade. Dependendo, podia continuar mais tarde, quem sabe até às dez horas, numa domingueira com música romântica na vitrola ou assistindo a um filme no cinema da praça. Onde fosse, mãos dadas, rosto colado, olhar fixo no outro, mostrava o clima do domingo. Era um delicioso jeito de aguardar o tempo de estar juntos de domingo a domingo, para sempre. Queria que a vida fosse sempre domingo. Mudou? Muito ... Poucos vêem as manhãs, pois acabaram de dormir, chegados das baladas do sábado. Será que viveram o jogo provocante do olhar e o encontro mágico e inocente das mãos? Se viveram, teria sido com a mesma pessoa do sábado passado? A mesa do almoço fica arrumada até tarde. Estão sem fome, só têm sono. Reclamam da programação da TV, das notícias do jornal, do tamanho miúdo do domingo que se esvai, deixando um semblante nostálgico, de culpa, de preguiça, com cheiro de segunda-feira de trabalho e compromisso. Teria havido beijo roubado no portão, sábado à noite? Será que ainda os namorados se despedem no portão? Não sei, mas os domingos não são mais dias de esperas e encantamentos.

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